1) Questione-se o compositor do samba-canção “Eu só vou se você for”

2) Evite-se a “Síndrome da Catedral Renascentista”

A letra daquela canção sugere um casal tão amalgamado, tão assim justapostos um ao outro, que não se sabe como conseguem respirar. Cada qual contribui para sufocar o outro e o que resta de suas respectivas individualidades. Melanie Klein, antecipando em 50 anos o que digo, cunhou o magistral conceito do “Par Combinado” , questionando que o casal, o par que se ama, apresenta um espaço para coexistirem sem que se percam suas individualidades, sem que se sufoquem.

Eu e Ela (que impede ou barra a Outra), ou Eu e Ele ( que impede ou barra o Outro) – quer dizer, outra e outro aqui significando a alteridade e não uma outra ou um outro quaisquer – continuam de per se, ou seja, com os respectivos encantos com que se atraíram: este é o par amoroso saudável. Já o Par Combinado é o dois em um, parecendo aquelas latas de marmelada – com – goiabada de antigamente, não sendo inteiramente nem uma coisa (indivíduos) nem outra (o par amoroso). Tanto é verdade que no tal samba-canção o casal não se sustenta e termina antes mesmo dos acordes finais da música, no caso um grande reforço para os descasamentos.

O termo “Catedral Renascentista”, usado por mim há anos desde minha experiência em grupo-terapia analítica, tem que ter uma representação gráfica, pictórica ou cênica e que é alcançável, de resto, por nossas cabeças imaginosas. Sucintamente, imagine-se um marmanjo já casado há uns 10 anos chegando em casa pé antepé, tipo “slow motion” pra não fazer barulho, às três da manhã.

Já está assustado e fica mais ainda ao ver sua casa iluminada. Está com um dos pés parado no ar, já com a cara adentrada à porta e aí sua mulher aparece – sempre subitamente nestes casos, como se lá ela não morasse – e faz-lhe a pergunta fatal: “- Onde você esteve até esta hora?” Note-se que qualquer resposta resultará em zebra. Ou ele mente e, qualquer que seja a mentira, vai dar azar; ou diz a verdade e o azar também brotará.

Hipótese 1 da mentira: -“Estava com uns amigos” e ela não vai acreditar e a coisa pode desandar. Hipótese 2 da mentira: -“Estava com outra”, o que resultará em ofensa óbvia, ainda que mentira. Vamos supor que ele diga a verdade e você verá que a situação continuará insolúvel: Hipótese 1 da verdade: -“Estava com uns amigos”; ela não irá acreditar e certamente o terá por mentiroso. Hipótese 2 da verdade:-“Estava com outra”; ela tenderá a acreditar e o achará, além de cafajeste, cínico e asqueroso.

O que ocorre é que ambos, marido e mulher, foram gradativamente saindo de suas funções e lugares, passando a se comportar como adolescente e mãe ou pai – de plantão, respectivamente. Se a história se repete com frequência, teremos uma falência matrimonial ou um desquite amoroso ou uma continuidade de uma relação pro forma, o que dá no mesmo. Em tempos atuais, cabe a inversão de papéis quanto a quem faça a chegada soturna ou de quem faça a pergunta fatal: ou o marido ou a mulher.

Mas a ironia da imagem da catedral tem persistência, pois presume-se que seja um lugar de celebração. Mas quando a casa – o porto de chegada – está anormal e superlativamente iluminada, é sinal de que algo não está funcionando. É o casal que deve iluminá-la, e não o contrário; temos aqui, mais uma vez, outra inversão de papéis. Em linhas gerais é esta a imagem. As causas sempre esbarrarão na falta da conversação dos membros do par e, em última instância, nas dificuldades de um ou de ambos em se compartilharem sem que percam suas individualidades. Individualidades estas que foram, são e serão a base da mútua e duradoura sedução, candidata à perenidade.

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Cláudio Persio
Médico Psiquiatra e Psicanalista. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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