Estou aqui, enfrentando mais uma recaída e estou em depressão. Mais uma das inúmeras fases que me destroem por dentro, massacram meus pensamentos, provocam dores pelo corpo, apatia total, crises de choro, irritação, impaciência. Mais uma vez, em 17 anos, estou vendo o mundo em preto e branco, por mais cores que eu saiba que ele tem.

De dois anos pra cá, as crises tem sido tão frequentes que sinceramente esgotei todas as possibilidades de tratamento. É uma doença cruel, que me devora pouco a pouco e faz com que eu não me importe com mais nada. As contas vencem e eu esqueço de pagar.

Esqueço de levar as chaves quando consigo sair de casa. Esqueço de responder mensagens de pessoas queridas. Acredite, não é descaso. É uma apatia que mal me deixa levantar da cama.

Aliás, o ato de levantar da cama exige um esforço surreal. Eu abro os olhos e já estou tremendo, coração saindo pela boca. Muitas e muitas vezes penso em desistir de levantar e ficar ali mesmo, deitada pra sempre. Meu desejo é esse, na maioria das vezes. Passo horas olhando para o filtro dos sonhos pendurado na minha janela. Observo ele indo e vindo, balançando com o vento, enquanto procuro entender porque estou passando por isso novamente.

Ao todo, são 4 remédios diários. Todos muito fortes. Iniciei, como última alternativa de tratamento, a acupuntura com homeopatia. Então, no total, tomo agora 9 remédios diários, cinco deles homeopáticos. Obviamente que preciso fazer lembretes no celular para tomar todos eles.

Faço academia e yoga, que são atividades chave para o tratamento contra depressão e ansiedade. Mas esta última crise, instalada em mim há uns 4 meses, não tem dado muita trégua, por mais atividades físicas que eu faça.

Pedi o desligamento da chefia do meu trabalho. Não podia mais lidar com tudo aquilo após ficar um mês de cama, fazendo mil exames de todos os tipos, cheia de manchas pelo corpo, para ser diagnosticada pela milésima vez com depressão. Sim, estou em depressão! Desta vez aguda, segundo minha terapeuta.

Continuo trabalhando, agora sem a responsabilidade de uma chefia tão grande. Sou completamente apaixonada pelo meu trabalho, e sei que sou boa no que faço. Porém, a apatia me faz pensar o tempo todo que não dou conta. Não dou conta da minha filha, família, trabalho, relacionamentos e amigos.

Tenho tido um respaldo que nunca imaginei ter. Mesmo estando em um grande isolamento, meus amigos estão perto. Mesmo que eu não possa retribuir agora o que eles têm feito por mim, eles continuam por perto, o tempo todo.

Minha mãe está criando novamente uma criança grande. O tempo todo ligada, prestando atenção no meu comportamento, que muda cinco vezes por dia. Ela está comigo todo o tempo, me amparando, me dando todo o suporte que preciso. São dias difíceis e eu não conseguiria sem ela nem minha filha.

Fico tentando achar uma solução pra mim o tempo todo. Algo que me faça sair dessa crise que parece eterna. Existem mil saídas mas nenhuma viável. Qualquer uma delas seria radical demais e obviamente as pessoas não entenderiam.

Vivemos numa sociedade que não entende o que é estar em depressão e o que ela faz com a gente. Ou somos frescurentos, ou mimizentos, ou preguiçosos, ou irresponsáveis. Este é o julgamento que alguém com depressão enfrenta diariamente.

O que eu mais quero na vida é sair dessa. Porque essa pessoa que está escrevendo agora não sou eu. Essa não é a Aline que tem tanta vontade de viver, aproveitar cada segundo, cada momento. Quero voltar a ser eu mesma. Ver o mundo cheio de cores e tons que eu sempre admirei. Poder estar com a minha família e amigos por inteiro. Trabalhar com a mesma paixão de sempre.

Depois de tantos anos de luta e esforço, ainda tenho esperança que meu sorriso largo vai voltar a ser tão espontâneo quanto minha vontade de viver intensamente.

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Aline Rollo
Jornalista, assessora de imprensa, escritora sobre ansiedade, pânico, depressão e afins, mãe da Manu, apaixonada por bichos, pelo mar, natureza, amigos, família, pelo amor. Tentando viver um dia de cada vez ❤

2 COMENTÁRIOS

  1. Querida me identifiquei muito com sua postagem, eu fiquei assim um bom tempo da minha vida, acho que depressão não tem cura 100% mas eu melhorei muito. Ainda sofro consequências dela na minha vida, Mas consigo seguir em frente… Eu costumo ouvir louvores e pregações quando me sinto ansiosa ou angustiada, por que agora consigo ouvir. No momento da crise eu pedia pra minha mãe ler o salmo 91 e salmo 23 (Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam). Porque acho que ter depressão é passar pelo vale da sombra da morte. Mas o senhor nosso Deus é misericordioso e pode tirar qualquer um de lá, qualquer um. Porque foi ele que nos criou, foi ele que nos projetou, ele sabe de todas coisas , ele sabe que vc está passando por isso. Tenha fé que ele vai te tirar de lá, ele etá te vendo agora ele vai te tirar tbm. Não perca sua fé em Deus.

    Salmos 23:4

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