Eu não gosto do modo como me observa e detalha cada particularidade minha, como se eu fosse sua pessoa favorita no mundo. Nem de como me olha de canto, com um sorriso tímido, que me deixa mais boba do que já sou. Não gosto da sua risada escandalosa, quero ouvir sempre que bate saudades.

Eu não gosto quando acerta quantas colheres de açúcar eu gosto no meu chá. Gosto menos ainda quando escolhe onde irmos, porque você também sempre acerta. E me faz ter certeza que me conhece tão bem, como se me conhecesse há muito tempo. Ou tempo o suficiente pra me desvendar.

Eu não gosto do seu andar desmazelado, que enfeita meu caminho quando estou ao seu lado, porque eu tenho o hábito de congelar seus passos e imaginar nosso compasso num ritmo muito sincronizado. Sempre juntos. Também não gosto quando coloca minha música favorita no seu carro que cheira chiclete, é viciante e dá vontade mastigar o ar.

Eu não gosto quando me abraça apertado, só me prova que seus braços acalmam toda e qualquer angústia minha. Eu não gosto quando entrelaça nossas mãos, enlaça tanto sentimento. Eu não gosto quando usa roupas com estampas de super heróis, que parecem ter sido compradas na sessão infantil e pela sua mãe. Me dá vontade de dizer que se é isso mesmo, ela tem bom gosto.

Eu não gosto quando aperta minha campainha, desesperadamente, me esperando com um engradado de cerveja na mão e diz que buquê é coisa do passado. Me faz acreditar que realmente é. Não gosto quando me convence que sexo só é bom quando tem sentimento. Gosto menos ainda quando deixa claro que eu sou linda e nós dois juntos somos perfeitos.

Você é uma junção de todas as coisas boas que eu gosto num homem, o que me faz gostar mais ainda do que eu não gosto de gostar. Por um motivo muito óbvio: não existe reciprocidade. E, se existe, é só quando lhe convém.

Você aparece em dias pares e me esquece em dias ímpares. Gostar de você é esperar muito. Esperar respostas. Esperar atitudes. Esperar que volte. Que fique. Que nunca vá. E esperar… Esperar. Eu sou ansiosa demais pra aquietar meu coração quando ele grita teu nome, sempre gaguejo tentando explicar seu distanciamento, porque talvez não exista justificativas mesmo. Você é como é e faz o que faz. Da maneira que quer.

Eu gosto de você, mas o gostar fica tão pequeno dentro da sua ausência grande, que eu até esqueço que gosto de você.

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Ana Carolina da Mata
Ela ama comer. Tem medo de apontar para uma estrela no céu e acordar com uma verruga no dedo. E também ama comer. Acredita que troca de olhares, às vezes, são mais bem dados que beijos de cinema. Não confia em pessoas que não gostam de animais. E ama comer. Tem medo do escuro e acha normal falar sozinha. Vive no mundo da lua e adora comer por lá também. É sagitariana, paulista, teimosa, devoradora de filmes, gulosa por livros e por comida também. Mas acha tolice tudo acabar em pizza, porque com ela, acaba em texto. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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