Sim, precisamos falar sobre dependência afetiva. Infelizmente, pessoas maravilhosas não conseguem se relacionar a contento por causa desta característica que mina os relacionamentos.

Quando o zelo e o carinho que dispensamos ao nosso parceiro deixa de ser zelo e carinho e passa a ser necessidade de autoafirmação e uma estratégia de suprir a própria carência e sentimento de solidão, o que era amor no começo se deteriora aos poucos, começa a minguar, até a pessoa perder a vontade de estar junto com o parceiro que sofre de dependência afetiva.

Não quero dizer que considero benéfico e saudável ser um parceiro afetivo displicente, desatencioso, que vive dando bolos no namorado/namorada. Não quero dizer que ser frio, indiferente, enfim, negligente no sentido emocional seja louvável. Muitas vezes, o parceiro reclama de negligência afetiva com razão, com bons motivos. Mas, no atual post, quero falar sobre pessoas extremamente carentes.

Quero dizer que a relação precisa respirar. Se não dermos tempo e espaço para o parceiro, a relação se torna sufocante. O parceiro é um companheiro, alguém que compartilha a vida conosco, que divide alegrias e tristezas. Alguém que divide os momentos banais também, pois quase sempre não estamos nem alegres nem tristes. Quase sempre estamos tocando a vida.

O parceiro não é uma muleta para almas quebradas. Não é Rivotril para almas ansiosas. Nem antidepressivo para almas tristes e cansadas. Embora o relacionar-se afetivamente nos torna realmente mais alegres e otimistas, o outro não pode ser visto nem tratado como um medicamento para as feridas que carregamos de outras experiências.

É preciso buscar forças e motivação na nossa própria vida. É preciso ter interesses pessoais, objetivos, anseios que não dizem respeito ao parceiro. Embora o parceiro seja figura essencial em nossa existência, é preciso buscar outras referências que nos enriqueçam como ser humano.

Algumas pessoas esquecem que tem família e amigos quando começam a namorar. Outras passam a negligenciar a vida profissional, se tornam desinteressadas em relação a tudo, passam a descuidar das finanças. Quando nos amamos e cuidamos bem de nós mesmos ficamos mais aptos a cuidar do parceiro, ficamos mais aptos a sermos profundamente amados.

Tudo o que eu estou escrevendo é muito simples de se colocar no papel ou dizer. O complicado é colocar em prática porque na teoria sabemos e entendemos milhares de coisas. Mas na prática, quando a carência começa a berrar em nosso ouvido, fica muito difícil de escapar das famosas armadilhas de um coração que já foi partido mil vezes e busca na relação atual uma espécie de cola para juntar os caquinhos.

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Sílvia Marques
Profa. doutora , idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU, escritora e psicanalista. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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