A música “Forever Young” lançada em 1984 foi um verdadeiro sucesso de público e crítica. Afinal de contas quem quer envelhecer?

De coadjuvantes no passado, os jovens passaram a ter o papel principal em filmes, documentários, livros, nas artes e na música.

A mídia reforça a imagem de que ser jovem é ter o poder da liberdade, da beleza… A ponto de virar clichê publicitário; slogan para uma vida prazerosa.

Não é à toa, então, que todos querem ser ou pelo menos parecer parte desta categoria.

Este “empoderamento” vem se acentuando e, não seria exagero dizer que a noção de juventude do senso comum pode ser designada como um estado de espírito e/ou como um valor positivo em si mesmo, representando qualidades como disposição, inovação e sensualidade.

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A transformação dos jovens em fatia privilegiada do mercado de consumo aconteceu nos EUA após a 2ª Guerra Mundial e foi rapidamente incorporada ao resto do mundo capitalista. A filosofia do consumo favoreceu uma cultura juvenil altamente hedonista e individualista, sem espaço para a expressão do sofrimento e culpa, já que o discurso que vigora é o prazer a todo o momento e a qualquer preço, sobretudo no que diz respeito às sensações de adrenalina, drogadição e orgasmo.

A imagem do adolescente desajeitado, antissocial e mal cuidado do passado, se transformou em modelo de beleza e charme para todas as faixas etárias. Com isto, a juventude não é mais encarada na sua negatividade, no qual o jovem é um “vir a ser”. A posição marginalizada de outrora – na qual os jovens imitavam os adultos – deu lugar ao convite que a sociedade atual faz à juventude eterna.

E é justamente o que tem sido verificado nos países ocidentais: o prolongamento juvenil, marcado por três aspectos interligados: a extensão da vida estudantil, o adiamento da entrada no mercado de trabalho e a permanência prolongada na casa dos pais. Estes aspectos obrigam o jovem a viver cada vez mais tempo dependente da família, mas gozando da liberdade dos adultos.

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Diante da aparente felicidade que a cultura jovem faz questão de exibir, sobretudo nas redes sociais, pode parecer contraditório constatar nos consultórios de psicologia o aumento da depressão juvenil.

As demandas são variadas, como: a angústia ao tentar corresponder às expectativas da pós-modernidade; a ansiedade ao se reafirmarem como a principal fonte de transformação social; a paradoxal solidão, quando afirmam terem mil amigos; o medo de se relacionarem profundamente com um parceiro só; a busca pelo sucesso profissional e independência financeira, o pânico ao entrar no mundo adulto sem modelos identificatórios sólidos, já que seus pais preferem se comportar como amigos, compartilhando das transgressões e dos estilos de vida dos filhos.

Como os jovens “necessitam” ostentar a vida perfeita, o sofrimento é vivenciado às escondidas. Muitos não se sentem confortáveis em dividir suas aflições e acreditam não precisar de ajuda, pois seguem a ideologia de que sofrer é coisa de idiota, portanto quem é esperto não sofre.

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Certa vez ouvi no consultório “não tenho tempo para lamentações e não me permito sofrer”. Acontece que esta adolescente tinha passado por uma situação extremamente traumática e precisava sim elaborar tudo aquilo, mas ela preferiu desconsiderar seus sentimentos e seguir a vida como se nada tivesse acontecido.

O problema é que esses considerados “espertinhos” e bem resolvidos pelo seu grupo de amigos e até pela sua família burlam algo inerente à condição humana que é o sofrimento. Mas muitos fazem isto de forma inadequada, como: fazendo uso de remédios controlados, drogas ilícitas e excesso de álcool; praticando vandalismo, violências ou abusos sexuais; desenvolvendo vícios em jogos eletrônicos ou esportes radicais que oferecem perigos reais a vida e por aí vai.

O jovem que se submete a análise e tem coragem para trabalhar os próprios dilemas consegue fazer uma retificação subjetiva, ou seja, o sujeito passa a se deparar com questões que escapam a sua consciência, mas que também o determinam.

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Este jovem provavelmente aprenderá a respeitar o tempo e a intensidade de cada sentimento, pois ele irá perceber que passar por cima, desconsiderando o que sente, poderá trazer mais prejuízos no futuro.

Desta forma, ele se reposiciona diante das suas queixas, das suas relações e, sobretudo, diante de seu discurso. O caminho para a vida adulta passará pela responsabilização das próprias escolhas, já que esta caminhada não depende apenas da passagem por determinadas etapas de vida, depende principalmente do desejo e da identificação do jovem enquanto um adulto. E é por esta falta de desejo que muito permanecem indefinidamente na juventude.

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Rosa Abaliac
Psicóloga e mestre em Psicologia Social. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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