Não bastasse ser filha de pais separados e não ter lá muita sorte no amor, ainda escolhi atuar na área de família.

Então, sempre segui a filosofia de que é “mais fácil achar um tiranossauro Rex andando na Praça XV do que encontrar um casal que se ame de verdade.”  Até que um dia um senhor me ligou dizendo que precisava fazer um mandado de segurança.

Marquei horário e ele veio. Pensei que era para ele, mas não era. Era para esposa, que estava muito doente e precisava fazer uma cirurgia às pressas (mas o pedido tinha sido negado pelo plano de saúde).

Pois bem, pedi a documentação necessária e quando vi o valor que ele (um aposentado de parcos recursos) paga por mês de mensalidade me espantei:

– Nossa, o senhor paga tudo isso no plano da sua esposa e ainda tem o seu, né! Que desfalque!

– Não, eu pago só para ela, porque esse é o melhor que tem. Para mim não pago. Para mim está bom o SUS.

Juro que me deu um nó na garganta. Nunca tinha visto um cônjuge privilegiar o outro desta forma (e olha que conheço “força” de gente casada).

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Fiquei tão pasma, que ele riu e explicou: a esposa tem a saúde debilitada, estão casados há quase 40 anos, possuem 2 filhos e uma netinha (de quem ele fala com muito orgulho) e não tendo como pagar dois planos, ele optou por fazer um só (para ela, que precisa mais).

Bom, ele levou a procuração e o contrato para esposa assinar em casa (olha que marido atencioso!) e eu ingressei com a ação. A liminar foi deferida e ela operada, mas precisou ficar internada se recuperando durante 5 longos meses.

Toda semana ele me ligava para dizer como andava a recuperação e uma vez eu perguntei se os filhos não se revezavam com ele no hospital. Ele falou que não, que eles até se ofereciam, que a nora se oferecia, mas ele não confiava em ninguém para acompanhar o tratamento. Tinha que ser ele.

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Cinco meses ela ficou no hospital e cinco meses ele ficou junto (dia e noite) inclusive ajudando nos banhos e trocando fraldas. Ontem ela recebeu alta e ele me ligou todo contente: “Agora ela está boa! Vai poder voltar para casa e eu também. Estou tão feliz!” Fiquei feliz também, não só pela recuperação daquela senhora, mas por descobrir que amor de verdade existe. Não é invenção de Hollywood.

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Saíle Bárbara Barreto
Advogada. É colunista do site Fãs da Psicanálise.




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