– Acharam! Está vivo!

Gritei eu, histérica, batendo palmas de alegria. Cheia de esperança quando tocou a musiquinha do plantão da Globo.

Grande engano. Acharam, sim. Mas, morto.

Meu Deus, como assim morto? Ele estava aqui ainda agora? Não pode ser engano? Não pode ainda mudar?

Aturdida esperava que alguém tocasse a musiquinha de novo. Que o jornalista me pedisse desculpa pelo erro e corrigisse aquele absurdo. Mas assim é a morte. Sem consertos. Só absurdos.

Aquele homem todo. Maravilhoso. O Santo que eu pedi a Deus. Como assim estava morto? E os índios que salvaram da outra vez? Que vacilada que deram! Ele não! Tanta gente para ir na frente!

Assim a gente faz. Finge que manda na morte. Faz que controla a vida. Tem lista de desejos e prioridades. Como se fosse ser atendido.

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Não é. Perdemos Domingos. Um pedaço da gente foi meio junto. Mesmo só conhecendo de longe.

Domingos Montagner era verdadeiro em seus personagens. Era terno. Certeiro. Charmoso de qualquer jeito. Envolvente e palpável. E o olhar? Gente, aquele olhar! Um olhar daqueles olhando para mim, eu pulava no pescoço dele.

Ele ultrapassava a tela e abraçava o espectador com sua doçura. Atingia a gente no sofá em cheio. Despertava suspiros. Um Santo daqueles, você não queria na sua casa?

O lugar se chama Prainha. A água parece uma piscina. Você entra, crente que domina a situação. De repente tudo muda. Aparece correnteza para a direita, para a esquerda e redemoinhos no meio. Não é assim também a vida?

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As pessoas que se vão. A gente tenta segurar, pega na mão. A mão escapa e a pessoa se vai. A gente urra de dor. Geme. Chora. Se descabela. Se desespera. Ai a vida, essa caprichosa. Não tem pena do que faz com a gente?

Domingos se foi no susto. Como no susto se foram tantos que já perdemos antes.

O telefone que toca. O mundo que desmorona. A falta de quem sempre esteve. E o vazio indefinido por dentro. Uma mistura de tristeza, de luto, de “ e agora quem mais”? O próximo? E eu, quando?

A gente boia em incertezas. Como se alguém, sem dó, puxasse todo o tapete. Tombo sem chão, sem parede, sem teto. Nada me protege de coisa nenhuma. Sou carne viva. Tudo me dói.

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Como lidar com um barulho desses? Talvez o grande segredo seja exatamente esse. Percebo que ninguém é para sempre. Nada é meu. Não há seguro, cofre, nem garantias que me protejam das perdas. Qualquer correnteza me leva. O futuro é nesse momento.

Então não poupe. Nem se poupe. Não colecione. Se emocione. Se envolva. Viva, abrace, diga que ama. Gaste afetos. Ouse. Se divirta. Fique perto. A vida é agora. Depois, não se sabe. Nunca se sabe.

Mas a morte não vem de castigo. Acho que a morte só vem. Está aí. Faz parte do combo. Entre a porta de entrada e a de saída, aproveite! Seja bom. Faça amigos. Deixe marcas. Borde almas.

Domingos era de circo. Palhaço. Fazia rir. Levava alegria. Domingos caprichava. Dava seu melhor. Foi amigo, homem, parceiro, pai. Viveu intensamente. É o que importa. No resultado geral, é o que conta. O que eu fui. O que aproveitei. O que deixei no outro.

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Domingos se foi e não foi. Leio e escuto os depoimentos. Vejo que grande homem. Que plenitude de afetos. Que intensidade amorosa ele semeou entre todos. Essa é a vida que fica. A que a gente borda na alma dos outros.

E Domingos deu certo. Domingos Montagner viverá em nós para sempre porque nos bordou com linhas de amor.

(Autora: Mônica Raouf El Bayeh)
(Fonte: extra.globo.com)

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