“(…) quase toda cultura reserva lugares e momentos para o consumo de drogas. O que faz a diferença, em termos de intensidade, frequência e do modo de consumo de drogas no capitalismo, é o fato de acontecer em uma cultura fundamentada no imperativo do consumo” – Pacheco Filho –

O método perigoso, e para alguns mais “interessante”, de evitar o sofrimento é o uso de drogas.

Elas provocam sensações de alívio, ou fuga, e torna as pessoas insensíveis à própria sensação de desgraça.

Se o mundo é cruel, as substâncias psicoativas, estimuladas para este fim, desligam o sujeito do sofrimento. E não demorou muito para alguém lucrar com isso.

A história é testemunha.

Os Estados Unidos ergueram seu pilar imperial com o cultivo do tabaco.

A Inglaterra travou uma guerra porque se achou no direito de invadir a China para viciar a população em ópio.

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E, além disso, os inúmeros povos que usam entorpecentes ligados ao âmbito sagrado e para fins recreativos estão no ‘pico’ das estatísticas.

Tudo isso para atingir uma transcendência artificial. São inúmeros os exemplos de como a cultura (do consumo, do lucro, vício e indiferença) está enraizada no inconsciente coletivo.

Para ilustrar com base psicanalítica, segundo Freud, certas substâncias “quando presentes no sangue ou tecidos provocam em nós, diretamente, sensações prazerosas, alterando tanto também as condições que dirigem nossa sensibilidade, que nos tornamos incapazes de receber impulsos desagradáveis”.

Hoje, o comércio de drogas é parte integrante da lógica capitalista.

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O mercado, utilizando-se de avanços científicos e tecnológicos, promove a industrialização, bem como a distribuição e venda de tais substâncias, de forma a gerar lucros abusivos aos grupos que se encarregam deste comércio, que, legal ou ilegal, está inteiramente inserido na racionalidade do nosso sistema econômico.

Tais “mercadorias” são vendidas legalmente e, no Brasil, culturalmente, em farmácias (sem prescrições) e bares, indiscriminadamente.

Já os ‘produtos’ ilegais não estão somente escondidos nas bocas dos becos em morros ou favelas.

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Nas escolas, nas ruas, no campo e em shoppings, a droga ilegal se faz presente.

Por ser um produto democrático e atingir todas as classes sociais, econômicas e intelectuais, sem distinção, as pessoas fecham a boca e os olhos para a questão…

E só abrem para ingestão de hidróxido de alumínio, pingar colírio e dormir com a consciência tranquila sob efeito de algum benzodiazepínico.

Estes, por sua vez, acordam, aumentam as dosagens e ‘tolerantes’ (no sentido da utilização em excesso do mesmo medicamento) vão à igreja ao anoitecer confessar os pecados…

Dos outros.

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Roney Moraes
Psicanalista; Especialista em Saúde Mental e Dependência Química; Mestre em Filosofia da Religião; Doutor em Psicologia (Dr.h.c); Doutorando em Psicanálise (Phd); Analista Didata da Escola Freudiana de Vitória (Acap); Ex-presidente e membro da Associação Psicanalítica do Estado do Espírito Santo (Apees); Coordenador do Centro Reviver de Estudos e Pesquisas sobre Álcool e outras Drogas (Crepad); Membro da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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