Em A Culpa é das Estrelas, o autor John Green conta a história de Hazel Grace, uma adolescente portadora de doença terminal, que descobre e vivencia um grande amor, dentro do cenário da premente e precoce finitude de sua vida.

Não importa a imensidão do quanto dura uma estrela ou a vida de um homem. Importa, dentro dessa finitude, a beleza, o amor e o que precisa ser vivido dentro dos vários tamanhos de infinito de cada vida, quando bem vivida.

A consciência do homem está sempre pronta para dividir uma mesma realidade em duas bandas com sentidos opostos. Ficamos com a parte que nos interessa e desqualificamos a outra, como agem os adolescentes com seus sentimentos de onipotência e ideias de imortalidade. Isso os leva a uma aproximação da possibilidade de morte. Por isso, ser lembrado da morte é, também, tomar consciência da vida e zelar pela boa qualidade dela.

Para Tolstoi, todas as famílias felizes se parecem, e cada família infeliz é infeliz à maneira delas. Em A Culpa é das Estrelas, John Green narra a história de Hazel Grace, adolescente portadora de doença terminal. A condição de sua família ser infeliz a faz se sentir uma granada prestes a explodir. A mãe, que vivia em função de cuidar da moça, a levou para participar de um grupo de apoio composto por jovens, portadores de câncer, cujas vidas tinham uma sentença de morte indefinidamente protelada.

Lidar com a dor que precisa ser sentida e o desconforto do que não podemos controlar, nos deixa péssimos ouvintes da dor do outro. Quando uma pessoa que vai morrer é enganada, com uma mentira agradável, segundo o PhD em psicologia Jean-Yves le loup, surge nela uma confusão e aumenta a dificuldade em que ela já se encontra. Isso porque o corpo “sabe” que vai morrer. Ocultar essa verdade é violar o direito sagrado de um eu finito se adaptar a uma natureza infinita. Chegará o momento em que o corpo, em sua última hora, revelará uma verdade brutal àquele que está para se libertar dessa dimensão corporal de um eu.

A culpa é das estrelas é uma história que ensina a necessidade de se viver a vida independentemente da impotência diante do destino. Somos responsáveis por várias decisões na vida, mas não pelo destino. É escolha dos deuses. Abrir mão do controle e aceitar o incontrolável é o modo que temos para aceitar as várias mortes que se sucedem em cada ciclo de vida.

No grupo de apoio, hazel Grace conhece augustus Waters – o Gus. Juntos descobrem o amor e o sexo. Vivem esse amor ilimitado dentro da lembrança de suas “sobrevidas” limitadas. Ambos incluem, em suas leituras, o romance chamado Uma Aflição Imperial. Uma obra que acaba no meio de uma frase. Esse sentimento de incompletude domina o casal, que vive essa sensação na vida.

A adolescência é uma fase da vida em que o homem está incompleto. Esse casal jovem não vive a ilusão da cura. O que lhes importa é viver um grande amor. Nessa fase, como em todas as outras, nunca saberemos o quanto iremos viver. Gus não chegou a ser adulto, partiu. Hazel, no funeral, fez um discurso, cuja última frase dizia: “você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados, eu sou muito grata por isso”.

AETERA ADOLESCÊNCIA É UMA FASE DA VIDA EM QUE O HOMEM ESTÁ INCOMPLETO. ESSE CASAL JOVEM NÃO VIVE A ILUSÃO DA CURA. O QUE LHES IMPORTA É VIVER UM GRANDE AMOR. NESSA FASE, COMO EM TODAS AS OUTRAS, NUNCA SABEREMOS O QUANTO IREMOS VIVER. GUS NÃO CHEGOU A SER ADULTO, PARTIU

A mãe de hazel se lamentou com a elocução: “Eu vou deixar de ser mãe”. A filha, sem querer, ouviu-a e revelou-lhe o que escutara. Pediu-lhe desculpas e disse que continuaria a amá-la como a própria hazel continuava a amar Gus. Nesse momento, a mãe lhe revelou que era mestranda em serviço Social. A filha ficou contente. Hazel imaginou que seus pais poderiam continuar vivendo, mesmo sem ter uma filha adolescente para se ocupar.

Há várias mortes em nossos ciclos de vida. Na morte simbólica da adolescência, os pais precisam intervir para que seus filhos não se tornem um puer Aeternus. Nome que se dá a um complexo que faz o indivíduo continuar a adolescência e depender dos seus pais por muito mais tempo do que determina sua idade cronológica. É o “filho eterno”.

Em nossa cultura, o modo de ser jovem tem a morte literal engolida pela ideia ficcional da eterna adolescência. Modo inconsciente de perpetuar a juventude. Estão acostumados com os desenhos animados da infância. A bomba explode, mas não atrapalha o personagem. Logo ele se recupera e entra em ação. Dessa forma, os jovens não conseguem elaborar os perigos que a mídia lhes transmite no dia a dia: rachas, pacientes jovens com câncer, liberdade sexual, drogas, o menino que entrou na jaula do tigre etc. Até os profissionais de saúde são propensos a fazer o diagnóstico tardiamente, quando se trata de um paciente juvenil. Obras literárias como a de John Green têm um valioso papel de acordar o nosso público para esse tema da morte literal e, assim, trazer mais valor para a vida.

Será a culpa das estrelas? de acordo com o psicólogo Viktor D. Salis, na astrologia arcaica, o retorno aos astros é o nosso caminho, que representa nossa evolução. Os astros são a manifestação dos deuses e, como viemos deles, a nossa personalidade teria essa influência. Faz sentido a frase: “viestes das estrelas e para as estrelas voltarás”, tradução livre de “viestes do pó e ao pó voltarás”. Disse são francisco: “senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado… Resignação para aceitar o que não pode ser mudado… Sabedoria para distinguir uma coisa de outra”. Aprendemos no livro que alguns infinitos são maiores do que outros e que todo o mundo deveria poder viver um amor verdadeiro, não importando o quanto dure.

Autor: Carlos São Paulo é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia.

Fonte: psiquecienciaevida.uol.com.br

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