Ela era uma criança normal como todas as outras. Brincava de boneca dentro de casa e jogava bola na rua com seus primos. Vivia numa rotina comum de uma família de classe média e não fazia a mínima ideia do que seu futuro reservava. Foi quando atingiu a puberdade que as coisas começaram a mudar em sua vida.

Sentia-se estranha e incapaz de olhar para um menino como suas amigas faziam. Assistia a novelas com sua mãe e fechava os olhos na hora dos beijos. Sentia nojo daqueles caras com barba.

Ela nunca teve atração por nenhum homem barbudo, aliás, ela nunca teve atração por homem algum.

Quando se deu conta que olhava para sua amiga com outros olhos, seu mundo desmoronou. Ela a desejava. Sua amiga tão delicada e amorosa despertava nela os mais diversos sentimentos.

Aquele sorriso lindo a atraía e seus desejos iam além de amizade. Mas ela sabia que era algo totalmente errado de sentir. Se seguisse seu coração e seus instintos, corria o risco de magoar toda a família. E pensar em contrariar teus pais a corroía por dentro.

Ela não podia ceder a esses sentimentos porque os amava. Toda vez que passava cenas de mulheres com mulheres e homens com homens na televisão seus pais achavam um absurdo. Diziam que estavam estragando a família tradicional brasileira e que toda aquela “pouca vergonha” ia influenciar as crianças.

Ela queria gritar que isso não a influenciaria, pois já estava dentro dela. Pelo contrário, todos aqueles beijos héteros nunca a fizeram ter vontade de conhecer homem algum. E aquilo que ela sentia ficava cada vez mais forte.

O ápice aconteceu quando sua amiga a beijou. Que surpresa! Ela também a desejava da mesma forma. E foi tão perfeito sentir os seus lábios macios e seu abraço caloroso. Descobriu ali naquele momento que era exatamente o que queria para sua vida.

Essa era ela. E não havia problema algum nisso. Embora, mesmo num mundo tão moderno que temos hoje essa forma tão linda de amar não seja aceita, ela sabia que precisava lutar pela sua felicidade.

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Sempre foi estudiosa, batalhadora. Seu coração enorme e bondoso fazia  bem a tantas pessoas, por que raios ela não merecia ser feliz como bem entendesse? Ela era boa e não fazia mal a ninguém, e nesse contexto de coragem, se reconheceu como era: uma garota normal, que gostava de meninas.

Apresentou seu amor a família. E não era um rapaz. Mas era linda como ela. A reposta a este ato não foi como ela desejava em seus mais profundos sonhos. Sua mãe, que sempre foi sua companheira, chorou. Seu pai quebrou tudo dentro de casa. Disse os absurdos mais difíceis para uma filha ouvir.

Ele literalmente preferia uma filha drogada a uma filha lésbica sem vícios. Preferia uma filha vagabunda a uma filha homossexual, respeitada. Preferia uma filha largada na vida a uma filha gay, segura de suas escolhas. E isso doeu. Doeu nela. Doeu em sua namorada, doeu em sua mãe que cessou o choro e a abraçou.  Porque afinal ela era sua menina e só queria a sua felicidade.

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Seus tios a olhavam de uma forma estranha, como se tivesse alguma doença contagiosa. Algo parecido aconteceu com alguns de seus amigos. Eles se mataram. Jogaram-se de cima de um prédio. Tiraram suas vidas porque cederam à pressão dos verdadeiros doentes da sociedade, aqueles que os julgavam, que os olhavam com preconceito, que negavam uma alma em detrimento de uma escolha sexual.

Ela nunca entendeu porque as pessoas eram tão más e cruéis. Ela nunca entendeu porque amar diferente deveria ser problema. Ela nunca entendeu porque não podia seguir seu próprio caminho. Ela nunca entendeu, porque ninguém a entendia.

Mas seguiu forte, porque seu amor era infinito e preconceitos não a abalariam. A humanidade já sobreviveu a tanto ódio e rancor. Essa seria apenas mais uma batalha q ela travaria.

Disseram a ela que isso era escolha. Ela havia escolhido ser “errada”, mas se fosse realmente escolha será que ela não escolheria o mais “certo” ou pelo menos o mais fácil?. Não foi escolha. Foi amor. Seu coração bateu por outra menina e ela não pôde evitar. O amor tem dessas coisas. Não é assim com todos nós? Por que não seria neste caso?

Ela fica triste tantas vezes que me entristece também. Por que não deveria passar por isso. Mesmo agora, vencedora. Formou-se professora. Ensinará tantas vidas, realizando um sonho. Devia estar radiante e não se entristecer porque quem devia estar ao seu lado não está. Porque existe um espaço vazio na cadeira de honra em sua formatura. Porque quem devia abraçá-la e dar a força que ela merece prefere insultá-la e rejeitam a sua felicidade. Porque nem todo mundo que é realmente importante pra ela a aceita como ela é.

Por tudo isso seu coração chora de vez em quando. Ela ama demais. E sente a dor corrosível do preconceito. Mesmo com toda a força adquirida ao longo dos anos ainda dói. Dói porque é injusto, dói porque é desnecessário, dói porque é um desperdício de amor.

Mas eu digo a ela para enxugar as lágrimas e curtir seu sucesso. Digo a ela para perdoá-los por tanta ignorância e crueldade. Eles não sabem o que fazem.

Digo a ela para pedir a Deus para iluminar seus corações e mostrar a eles o quão digno é toda forma de amor. E peço que siga em frente, continuando essa batalha árdua, com esse peso a mais, difícil de carregar mas incapaz de impedir sua vitória.

Nunca desista de sua felicidade. Gosto de vê-la abraçar a  vida sorrindo. Linda e guerreira, como tem que ser, nada menos que isso e ponto final.

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Mia Coutinho
Publicitária por formação, aeromoça por opção e escritora por paixão. Virginiana, perfeccionista, mãe do Henri. Entre fraldas e mamadeiras, entre pousos e decolagens, entre artes e artimanhas, ela escreve. Escreve porque para ela, escrever é como respirar: indispensável à vida! É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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