FILE - In this Wednesday, Jan. 20, 2016, file photo, Syrian refugee Bissan Alabdullah, almost 3, smiles while standing next to her family's laundry outside their tent at an informal tented settlement near the Syrian border on the outskirts of Mafraq, Jordan. International aid to the victims of Syria's five-year-old war, including millions forced to flee their homes, has persistently fallen short, but organizers of the Thursday, Feb. 4, 2016, annual Syria pledging conference hope for greater donor generosity this time around, despite a record ask of close to $9 billion for 2016. (AP Photo/Muhammed Muheisen, File)

O historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012), em sua análise do século XX, bastante difundida no livro “Era dos Extremos”, sublinhou que este foi o período mais sangrento da história, em razão do imenso volume de mortes provocadas por guerras.

Estima-se que mais de 100 milhões de pessoas foram vítimas desses conflitos, algo chocante e sem precedentes.

Diante desse cenário, marcado também pela ascensão dos regimes nazifascistas, é compreensível a presença de uma espécie de sombra que se projetou na literatura, fazendo emergir clássicos, como “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, e “1984”, de George Orwell, publicados, respectivamente, em 1932 e 1949.

Ambos se tornaram referências emblemáticas de obras de distopia – termo de origem grega, formado por “dys” que significa “mau, ruim” e pelo radical “topos” que significa “lugar” e, ao contrário das utopias, as distopias chamam atenção pelo “cenário ruim” –, e seguem reverberando até o presente.

Como é possível identificar nos trabalhos de várias gerações de autores, quadrinistas e cineastas que volta e meia bebem nessas fontes. Isso mostra como esses livros conseguiram superar o contexto no qual surgiram, projetando a temática da distopia ao longo de várias décadas. “1984” e a fábula distópica “Revolução dos Bichos” (também de Orwell), por exemplo, voltaram à lista dos títulos mais vendidos nos EUA e no Brasil este ano.

O fato vem sendo relacionado à repercussão das afirmações duvidosas do presidente norte-americano Donald Trump. De acordo com a revista “The Hollywood Reporter”, há, inclusive, uma adaptação do título para o cinema sendo produzida pelo diretor Paul Greengrass.

No Brasil, o lançamento, no mês passado, de uma nova tradução do romance “Nós”, do russo Yevgeny Zamyatin, ressalta a importância da narrativa, que é da década de 1920 e, portanto, anterior às mais conhecidas. O que a faz ser reconhecida como uma das precursoras do gênero distópico e uma influência grande tanto para os escritos de Huxley quanto os de Orwell.

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Os sinais de que o segmento está com força total no presente não para param aí. Está prevista para este mês, a estreia do longa-metragem “O Círculo”, que é baseado na ficção distópica de mesmo nome, escrita pelo norte-americano Dave Eggers e publicada em 2013.

O filme deverá ecoar conflitos semelhantes aos abordados pela série britânica “Black Mirror”, de Charlie Brooker, e que vem conquistando o público com suas histórias perturbadoras envolvendo tecnologias, como internet e redes sociais.

Outra produção que dialoga com essa seara é a série brasileira “3%”, desenvolvida por Pedro Aguilera e exibida pela Netflix. Com uma segunda temporada já em produção, ela vai trazer novos episódios ambientados num período de terra arrasada, em que falta o básico: água, comida e energia.

Projeções futurísticas. As criações que flertam com o apocalipse estão, portanto, em alta e, para o escritor Joca Reiners Terron, têm se apresentado cada vez mais duras em suas projeções futurísticas. “O apocalipse de agora, ao contrário de em outros tempos, parece ser mais drástico.

Não envolve as forças da natureza, mas as instituições da sociedade. Nada mais parece ter a capacidade de nos salvar, enfrentamos o apocalipse da ideia de civilização ou mesmo do humanismo. Daí, talvez, o fato de essas distopias ressurgirem como leituras necessárias. Porém, mesmo elas parecem otimistas diante daquilo que andamos testemunhando”, reflete Terron.

Para o também escritor Cristovão Tezza, as distopias podem ser percebidas como uma tentativa de se compreender o mundo por outros ângulos. “Elas são fundamentalmente obras literárias, quase sempre no capítulo dos ‘romances de ideias’, fábulas de nossa condição. Suponho que poucos escritores, de fato, estão interessados em salvar o mundo; apenas tentar revelá-lo sob um ponto de vista original, único”, observa o catarinense.

Alice Fátima Martins, professora da Universidade Federal de Goiás e autora do livro “Saudades do Futuro: Ficção Científica no Cinema e o Imaginário Social Sobre o Devir”, comenta que as distopias, especialmente após as Guerras Mundiais, passaram a ocupar o lugar de antigas utopias. Entre elas, a crença de que os conhecimentos tecnológicos e científicos seriam os principais meios de levar a humanidade a um estágio superior evolutivo.

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“Depois do impacto da bomba atômica, vai-se chegando à percepção de que esse desenvolvimento da ciência e da tecnologia, na verdade, poderiam causar males terríveis para as sociedades.

Então, as utopias, que tiveram o papel anterior de sedimentar algumas visões ligadas à defesa do progresso estimulado pelas descobertas científicas e tecnológicas, cederam espaço para as narrativas distópicas. Essas seriam uma espécie de atualização dos mitos sobre os riscos desse encaminhamento”, afirma Martins.

Rudinei Kopp, autor do livro “Quando o Futuro Morreu?”, comenta que as distopias, por outro lado, não deixam de ter certo ingrediente de otimismo. Apesar de elas apresentarem sempre um retrato obscuro de determinado momento da sociedade, para ele, essas histórias também podem trazer consigo o estímulo à busca por uma realidade diferente daquela descrita “A atitude do escritor é otimista na medida em que ele escreve a distopia e acredita que ela pode alertar a sociedade”, pontua ele.

As narrativas distópicas trazem consigo uma dose considerável de temor quanto aos desdobramentos da vida em sociedade. E, de fato, algumas delas, como aponta o escritor Cristovão Tezza, conseguem “antecipar as sombras de um suposto futuro luminoso”.

Não é algo raro as pessoas lerem “1984”, de George Orwell, ou “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, e conceberem alguns paralelos entre aspectos evidentes no presente com aqueles que instigaram a imaginação desses autores anos atrás.

A disseminação das câmeras de vigilância e a ameaça à privacidade, por exemplo, são reflexões que podem aproximar o cotidiano de hoje daquele apresentado por Orwell em seu romance. Os impactos da manipulação do código genético humano, por sua vez, são capazes de dialogar com a condição dos indivíduos biologicamente programados apresentada por Huxley em sua ficção.

Alguns temas abordados anteriormente se revelam, portanto, em diálogo com as inquietações contemporâneas, enquanto outros pontos são acrescidos a esse repertório de preocupações. Rudinei Kopp, que é escritor e professor da Universidade de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, observa que as distopias mais recentes vêm colocando em pauta a questão da transformação do ser humano num conjunto de valiosas informações.

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“Em grande parte das distopias, o homem sempre é convertido em alguma coisa que a sociedade entende como uma ameaça. Se ele passa a ser compreendido como um fluxo tecnológico, logo pode ser visto como uma peça disponível e a ser traduzida em dados. Isso é algo que aparece no livro ‘O Círculo’, do escritor Dave Eggers.

Nessa história, o ser humano surge vulnerável a quem domina aqueles códigos informacionais, e, a partir disso, ele pode ser moldado, de acordo com o interesse de determinado sistema”, afirma Kopp.

Ele, por outro lado, reforça que há uma diferença entre escrever uma narrativa distópica e se arriscar na prática da futurologia. “O autor precisa fazer com que o conteúdo tenha um tipo de provocação que não seja descritiva e não pode se preocupar se vai acertar ou errar um prognóstico social futuro. A narrativa tem que se descolar da possibilidade do real, pois é nesse voo que algumas reflexões interessantes podem acontecer”, conclui Kopp.

Quando a distopia é mais um espetáculo

Nem sempre os livros ou as produções audiovisuais distópicas conseguem levar o público a refletir sobre o cenário que retratam. Para o escritor e professor Rudinei Kopp, o consumo dessas obras precisa ser ponderado. “As distopias têm um propósito de alerta, mas a gente nunca vai saber o quanto elas mexeram com a sociedade. É como o princípio da incerteza, de Heisenberg. Quando se observa um fenômeno não se sabe quanto ele foi alterado ou não pela própria visão do observador”, afirma ele.

Um caso permeado de ambiguidades é o do seriado “Black Mirror”. Ao mesmo tempo em que a produção aborda a alienação e as fragilidades de uma sociedade profundamente digital, ela tem grande parte de seu sucesso favorecido pelas redes que questiona.
“Os episódios de ‘Black Mirror’ fazem parte de uma narrativa distópica.

Eles apontam os riscos das redes e dos aplicativos, mas usa tudo que está disponível para chegar até o público. Como se as pessoas estivessem se afundando cada vez mais naquilo que eles estão tratando, porque ninguém está disposto a abrir mão dos benefícios que esse meios podem trazer”, relata Kopp.

A também pesquisadora Alice Fátima Martins frisa a importância de se entender as criações num contexto. “É importante não ficar atento apenas às narrativas, mas refletir sobre os mecanismos de produção e veiculação delas e o modo como as pessoas estão se apropriando dessas histórias”, conclui ela.

Fonte: O Tempo

Autor: Carlos Andre Siquara

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