Estava conversando com uma amiga um dia desses e ela mencionou que estava muito chateada. O motivo era o número baixo de likes nas fotos que postara no Instagram recentemente. De acordo com ela, o novo perfil era sua reinvenção, já que postava conteúdos diferentes dos anteriores; no entanto, não estava alcançando o mesmo sucesso.

Confesso que, a princípio, achei um pouco bobo. Apesar de participar dessa e de outras redes sociais, nunca fui muito envolvida. Para mim, servem apenas para saber de eventos e assistir vídeos de animais fofos. Também não entendia 200 curtidas como um número baixo. Minha percepção mudou quando percebi que ela estava realmente sofrendo com aquilo.

Temos uma diferença de idade significativa. A geração dela já nasceu imersa nas redes sociais, diferentemente da minha que viu seu “nascimento” e foi se adaptando. Talvez por isso, esse tipo de fala seja mais facilmente observável nas novas gerações. Tudo na vida dela é publicizado. Os relacionamentos, o trabalho, as mudanças nos cortes de cabelo, a intensidade das amizades. Tudo aparece nas atualizações e tem sua validade alcançada pelo número de curtidas ou likes que recebem.

Considerando a importância e abrangência dessa tema, focarei minha análise em dois aspectos. Abordarei principalmente a interferência das redes sociais no desenvolvimento psicológico dos adolescentes, mas muitos dos pontos levantados podem propiciar reflexão também para o público infantil e adulto. Vamos lá?

O primeiro aspecto é a formação de identidade. Antes de abordar esse tópico é importante fazer uma breve apresentação desse processo nas principais etapas do desenvolvimento. Pessoas começam a formar quem são quando nascem. Quando são bebês, ainda se identificam como um só com a mãe e aos poucos se reconhecem como indivíduos separados dessa.

Ao se tornarem crianças, aparecem comportamentos de imitação e de uso das roupas e acessórios dos pais. Nesse período eles compreendem que são sujeitos únicos, mas desejam ser como os progenitores, já que esses são os modelos da idade adulta com quem tem mais proximidade.

Na adolescência há o desejo de tornar-se adulto e individualizar-se, para isso se distanciam do modelo de conduta dos pais, identificando-se com grupos de pares. Antes do advento das redes sociais, esse processo acontecia dentro das proximidades e tinha na escola o maior espaço de socialização. Atualmente, no entanto, é possível se conectar com qualquer pessoa no planeta e com enorme velocidade. Os pais, que antes eram familiarizados com todos os amigos e colegas do filho, perderam esse controle. Poucos sabem com quem seus filhos interagem na internet.

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Além disso, as maneiras de interação mudaram. O que antes ocorria apenas por via escrita e pessoal, assume formas virtuais. Facecalls, lives, live chats, troca de fotos instantâneas, status compartilhados, tweets são apenas algumas delas. Tudo acontece com grande velocidade e pode assumir grande força. Tudo é maximizado pela exposição, inclusive a aprovação e reprovação. Os aceitos recebem curtidas, alcançam seguidores e os excluídos não. Modelos apresentados como desejáveis são valorizados, provocando a busca pelo ideal proposto e compartilhado. Enquanto que os que escapam da norma, são criticados, bulinados e bombardeados por comentários que indicam o quanto são inadequados.

Outro aspecto é a formação da autoimagem. A exposição de corpos femininos e masculinos considerados perfeitos sempre ocorreu. No entanto, agora é possível observar isso com grande facilidade, bastando acessar a internet. Blogueiros, modelos e youtubers postam a todo momento. Se os adultos sofrem com essa constante avaliação, os adolescentes que estão em processo de formação são os maiores alvos. Corpos magros, corpos sarados, corpos brancos, corpos pretos, corpos bronzeados. A cada momento o que é considerado belo muda, sujeitando as pessoas a uma eterna insatisfação. O próprio corpo nunca é bom o suficiente.

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Percebe-se atualmente na mídia um movimento que visa lutar contra isso, promovendo valorização do que é seu. Campanhas apontando a diversidade, o sucesso das modelos plus size, a representatividade no cinema e na televisão apresentam o surgimento de um paradigma animador mas ainda incipiente.

Considerando esses dois pontos é compreensível o porquê do número de curtidas interferir tanto no humor da minha amiga. Quem ela é e quão bonita se sente depende diretamente da aceitação da comunidade virtual. Ela precisa estar dentro de um padrão muito rígido para ser valorizada. Essa não é uma situação particular. Todos os adolescentes que atendi na clínica desde que iniciei meu trabalho como terapeuta relatam a pressão que sentem em atingir um ideal apresentado para eles. Abordam um sofrimento imenso por não se encaixarem. Os adolescentes considerados adequados também sofrem, já que precisam se manter “atualizados” e não podem demonstrar quem são. Trata-se da busca de uma vida artificial.

Os adolescentes estão em um momento crítico do desenvolvimento e são vítimas de um sistema desleal e cruel. Na busca pela individualidade, esbarram em adversidades implantadas por uma lógica impossível de perfeição. Eles chegam ao consultório em conflito porque não alcançam o que lhes é apresentado e sofrem com isso. A questão é que é impossível e não precisam persegui-la. Ninguém precisa! E precisamos dizer isso a eles. Mas antes de dizer, precisamos acreditar. E quando o fizermos, seremos mais efetivos em nossas intervenções e interações.

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