Não nos deixemos atordoar pelas regras opressoras que ainda movem a sociedade.

Podemos ser maiores que tudo isso.

Pensemos nas regras que já foram quebradas ao longo dos séculos em favor da humanização dessa mesma sociedade.

Há pouco tempo na história, Martin Luther King explicava o óbvio, mas nem todos entendiam. A violência institucionalizada, convenientemente ou não, passava despercebida àqueles que se acostumaram com as normas opressoras ditadas à época.

Lembremos, por exemplo, que, no tempo de King, mulheres idosas deviam ceder o seu lugar no transporte público a homens brancos, simplesmente porque eram negras.

Mahatma Gandhi também precisou quebrar imensas barreiras para, de uma forma pacifista, lutar pela liberdade em uma sociedade oprimida pela colonização britânica.

A opressão pode estar contida em uma regra escrita e expressa. Contudo, no atual estágio de desenvolvimento das sociedades ocidentais, a opressão mostra-se mais em regras subliminares, aquelas que todos observam como uma verdade generalizada, porque nos foram transmitidas ainda na infância, mas que trazem uma conotação desprezível, julgadora e preconceituosa, disfarçada de qualidade moral.

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Exemplificativamente, podemos falar da opressão de gênero. Desde a infância, e sem uma regra expressa, aprendemos que determinadas atividades são para mulheres e outras são proibidas para o sexo masculino. Isso não só ofende o direito de as mulheres serem o que bem quiserem, mas também aniquila a liberdade masculina.

Há pouco tempo, e de forma brilhante, o Papa Francisco asseverou: “não existe mãe solteira. Mãe não é estado civil”. A expressão “mãe solteira” é um ótimo exemplo para o que tratamos, posto que encerra grotesca carga preconceituosa contra a mulher. Ou será que alguém já ouviu, com conotação pejorativa, a expressão “pai solteiro”?

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Os exemplos acima apenas demonstram o que já sabemos. A sociedade ainda oprime. Ainda há mandamentos subliminares que transmitimos às crianças, incutindo-lhes sentimentos negativos que, um dia, poderão repercutir nelas mesmas, produzindo adultos infelizes que não conseguem se libertar de falsos paradigmas morais, ainda que tais paradigmas não mais façam parte daquilo que acreditam.

Por isso, muitas vezes, ressentimo-nos de tristeza porque a opressão nos consumiu. Porque não conseguimos desatar os nós que nos prendem a estilos de vida e ideais que em pouco tempo serão substituídos.

Não, não precisamos ser Gandhi, Martin Luther King ou o Papa Francisco. Basta que sejamos nós mesmos, sem interferências de ideias opressoras preconcebidas.

Como saber se somos autênticos? Escutemos o silêncio de nossa alma. Ela chora, deprime-se, entristece-se, sem saber ao certo a causa? Provavelmente e, sem perceber, não estamos seguindo o caminho que escolhemos traçar, deixando-nos arrastar por modelos sociais opressores. Em algum ponto, deixamo-nos oprimir pelas condições desumanas da humanidade.

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Sentimo-nos felizes, plenos e em equilíbrio? Bem possível que tenhamos encontrado o caminho por onde realmente devamos veredar.

O termômetro do coração nos mostra se estamos acertando no caminho escolhido ou se ainda somos influenciados por falsos paradigmas morais.

Sentimo-nos bem com nossas atividades? Levantamos de manhã dispostos e cheios de planos? Sinal de que não há febre.

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Algo em nós não está legal e a tristeza parece nos dominar? Está difícil fazer coisas simples e nada nos dá muita satisfação? Opa, parece que tem alguém enfermo, com febre na alma.

Não nos deixemos oprimir, por favor. Procuremos a causa de nossa dor. Lembremo-nos, novamente, que aquilo que nos faz sofrer, na maioria das vezes, provém de uma falsa premissa anterior. Estamos sozinhos? Quem foi que disse que a felicidade só é encontrada quando se tem alguém? Premissa falsa: “para ser feliz, temos, necessariamente, de ter um (a) parceiro (a)”.

Se acreditamos na equivocada ideia preconcebida que nos passaram ao longo dos anos, sentir-nos-emos, sobremaneira, infelizes e mal teremos forças para mudar a nossa realidade.

Não nos encontramos profissionalmente? Premissa falsa: ”para ser feliz, precisamos ter o melhor emprego do mundo”.

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Quem foi que disse que o emprego pode determinar a felicidade das pessoas? Resposta: os valores opressores da sociedade que determinam a importância do indivíduo não pelo o que, de fato, ele é e sim pelo cargo que ocupa.

Esses mesmos valores determinam que o sujeito deve mudar de cidade, ainda que não o queira, para alcançar o emprego ideal. Que o sujeito deve deixar de casar, se for preciso, para encontrar o emprego dos sonhos. Que o sujeito deve deixar os seus atributos artísticos de lado, se for o caso, para ganhar mais dinheiro.

Por quanto tempo esses paradigmas permanecerão? Um dia cairão como já caíram tantas outras inverdades.

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Não nos oprimamos, então, por favor. Sigamos o nosso termômetro interior e, se ele estiver alardeando febre, paremos, respiremos. Cantemos, mas cantemos bem alto para todos ouvirem. Não sigamos no mesmo ritmo frenético da maioria se a nossa música entoar uma melodia diferente.

Continuemos em nosso ritmo e por caminhos tortuosos, se necessário for, sem que nos sintamos oprimidos. Ainda que não seja possível a total plenitude, a felicidade requer uma pitada de equilíbrio. E, para esse, não há regras preconcebidas. Há, tão-somente, o apito de nosso coração, dizendo: “por aí não, por aí não é legal”.

(Imagem: Brooke Shaden)

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Regiane Reis
Mestre em Direito Constitucional. Autora do livro "O empregado portador do vírus HIV/Aids". Criadora do site pausa virtual. "Buscando o autoconhecimento, entendi que precisava escrever sobre temas universais como a vida, o amor e a fé". É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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