Somente a psicanálise defende que o único remédio efetivo para a angústia é o desejo.

Em tempos de crise (existencial, moral, ética, financeira), os consultórios de psicanálise costumam ser procurados. Não para solução de problemas, mas para o enfrentamento das desilusões que sozinhos não suportaríamos.

A escritora Rosiska Darcy de Oliveira diz que o encontro com a verdade não pode ser senão doloroso, pois o preço para cair na real é a moeda da angústia.

A angústia envolve sempre um sofrimento psíquico e também físico, corporal, pois por definição tem a ver com uma sensação de estreitamento, um aperto no peito, uma dificuldade de respiração que muitos sentem nesse estado.

Contudo, temos que resolver, ao menos parcialmente, os conflitos internos para garantirmos a sensação de pertencimento no mundo.

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Para que isso aconteça, há uma condição existencial: reconhecer que a angústia não é somente um sofrimento, mas também a sensação de impotência do sujeito frente a esse sofrimento. Sendo uma condição existencial, a angústia acompanha a própria história do homem.

Freud afirmou que a angústia é um sinal de perigo frente a uma situação de perda muito temida, mas Jacques Lacan inverteu essa proposição, trazendo uma contribuição ímpar à psicanálise: a angústia não é originada pelo perigo de separação, mas sim porque a separação ainda não se fez.

A angústia não é um simples sinal de perigo diante de uma perda de objeto. Ou seja, ela não constitui sinal de uma falta, mas sim o sinal da “falta da falta”, ou seja, não é a falta da mãe que provoca a sua angústia, mas quando essa mãe nunca falta, nunca se ausenta, está sempre presente e buscando suprir suas demandas.

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“Precisa-se preservar um vazio para a manutenção do desejo, e a angústia surge, justamente, para sinalizar o perigo dessa saturação. Esse é, precisamente, o mal-estar que vemos hoje em dia, mais do que nunca: pais que não conseguem dizer “não” aos seus filhos, que tentam nunca frustrá-los achando que, com isso, estarão fazendo-lhes um grande bem; e os filhos (crianças, adolescentes ou até adultos), como resultado, extremamente angustiados, sob diversas manifestações: inibidos, violentos, hiperativos, usuários de drogas, etc…”, diz o analista Marlos Terêncio.

Qual o remédio mais efetivo para a angústia?

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Não é a medicação. Ela apaga apenas o sintoma e não transforma o sujeito. Somente a psicanálise defende que o único remédio efetivo para a angústia é o desejo. E para haver desejo é necessário que o sujeito suporte a falta.

Em outras palavras, a realidade é angustiante. E se tem uma coisa que a psicanálise acertou é sobre a condição de “realidade”. Ela é inconsciente. E só a análise tem instrumental necessário para saber lidar com o que nos angustia (com a falta). Este sim é o melhor remédio.

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Roney Moraes
Psicanalista; Especialista em Saúde Mental e Dependência Química; Mestre em Filosofia da Religião; Doutor em Psicologia (Dr.h.c); Doutorando em Psicanálise (Phd); Analista Didata da Escola Freudiana de Vitória (Acap); Ex-presidente e membro da Associação Psicanalítica do Estado do Espírito Santo (Apees); Coordenador do Centro Reviver de Estudos e Pesquisas sobre Álcool e outras Drogas (Crepad); Membro da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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