Maria era uma moça muito bonita, apesar disso sempre foi afetivamente bem carente. Sentia-se extremamente sozinha e chegava a duvidar de que um dia poderia encontrar alguém para dividir a dura tarefa de viver. Via as moças de sua idade namorando, mas não conseguia encontrar alguém para ela. Duvidava que um dia pudesse ser importante para alguém. Não acreditava possuir qualidades o bastante para isso.

Até que um dia, Maria conheceu alguém que pareceu lhe fazer muito bem e a ele, ela dedicou todo seu amor. Abriu mão de seu amor próprio se dedicando de forma integral para esse alguém. Nunca imaginou poder estar com alguma pessoa que julgasse tão especial e por conta disso, não queria perdê-lo por nada. Renunciou às poucas coisas que podiam lhe trazer algum prazer para estar junto de seu amor.

Algum tempo se passou e certo dia ela sofreu uma grande rejeição vinda desse alguém, do qual já estava desenvolvendo um grande afeto. Na verdade, ele já vinha a tratando mal há tempos. Ele vinha fazendo certo descaso dela de forma sutil. Ela percebia, mas desejou tanto essa relação que não queria acreditar nisso, mesmo sendo maltratada. Sendo assim, insistiu em permanecer com ele. Visto que, por vezes acreditava que esse descaso seria pelo fado de seu companheiro ter percebido o quanto ela era indigna de ser importante para alguém, assim como ela mesma desconfiava. Com isso, Maria se conformou com a situação e decidiu se contentar com migalhas de afeto.

No entanto, as experiências de descaso e decepção foram se tornando cada dia mais frequentes e mais severas. Assim, Maria experimentou uma sensação de grande desamparo e se viu completamente abandonada. Sentiu-se pior do que quando não tinha ninguém. Foi repudiada por alguém do qual depositava grande consideração. Alguém que fizera descaso do amor de Maria.

A partir daí, a moça se refugiou dentro de si mesma e no seu interior, Maria teve um encontro com ela mesma. Foi um encontro difícil, muito conflituoso, pois Maria havia abandonado a si mesma para se dedicar a pessoa que então a desprezou. Maria estava descontente com ela própria e assim passou a condenar-se, acusando-se de descuido e desrespeito, por conta do tempo em que esteve ausente de si, se dedicando a alguém que só a desprezava. Depois de muito brigar consigo mesma, Maria só conseguiu fazer as pazes mediante a um pacto narcísico. Certo pacto egoísta que fizera com ela mesma. Prometeu para si que nunca mais iria abrir seu coração para ninguém. Assegurou a ela mesma que nunca mais iria dedicar seu amor a ninguém. E assim seguiu a vida…

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Porém, a partir de então, algo muito perturbador começou acontecer. Por mais que Maria não fosse capaz de reconhecer-se a si mesma, ela era uma moça cheia de atributos e virtudes. Era muito bonita, muito inteligente, carinhosa, uma moça muito dedicada e honesta. E diferente do que ocorria antes, agora, muitas vezes passou a ser cortejada por belos rapazes que pretendiam se relacionar com ela. Mas, cada vez que Maria se interessava por alguém, iniciava-se automaticamente, um conflito com ela mesma.

Ora, afinal havia prometido que nunca mais se interessaria ou se abriria para se relacionar com outro alguém. Como que uma reclamação pela solidão que uma vez restituiu a paz. Solidão que se configurava, antes de tudo, num ato de autopreservação. Um dia ferida, retraiu-se, confortando-se no colo de si mesma e com isso garantindo nunca mais se arriscar.

Maria chegou à conclusão de que seria melhor evitar o outro do que decepcionar a si própria, já que o outro pode abandoná-la enquanto ela mesma sempre estará ali. Duvidava que pudesse ser importante para alguém e muitas vezes, acabava preferindo que fosse verdade. Um desenlace crítico e difícil de reverter.

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Cada dia que passava Maria aumentava expedientes egoístas e fantasiosos para convencer a si mesma de que não precisava de ninguém mais em sua vida. Depois de desenvolvidos recursos ilusórios, porém eficazes para não precisar de ninguém, torna-se difícil encontrar motivos reais para manter-se ligado a alguém.

Apesar disso, Maria não percebia que com isso sua autoestima definhava, dia a dia. De onde poderia nutrir-se de amor para cultivar o amor próprio? O amor próprio é amparado essencialmente pelo amor do outro. Sem o amor do outro, o amor próprio não se sustenta e acaba por atrofiar-se.

“Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em consequência da frustração, formos incapazes de amar.” (Freud, em SOBRE O NARCISISMO UMA INTRODUÇÃO, 1914).

Quando não se tem o amor do outro o eu deve se sustentar por saídas substitutivas de baixa, ou nenhuma qualidade, que na realidade só fazem por promover a autodestruição. Um exemplo de subterfúgio dessa espécie é a arrogância. Pela prepotência o eu pode enganar-se a si mesmo justificando que é autossuficiente e não necessita de ninguém mais. Ainda assim, necessita muito do outro, mesmo que não queira admitir. Afastando cada vez mais as pessoas de si, se sente cada vez mais sozinho. Aquele que imagina não precisar de ninguém, na realidade, depende de todos.

(Autor: Dr. Renato Dias Martino)

(Fonte: pensar-seasi-mesm)

*Texto publicado com a autorização do autor.

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