Pais são curtos. Pai e mãe são curtos porque não se demoram; não importa o tempo, não se demoram. Como nossos melhores espelhos não nos dão suficiente tempo – para que os enxerguemos como gostaríamos nós de ser enxergados. Das mágoas que sentimos e não diluímos. Das verdades que fazem com que sejam aquilo que também somos mas que insistimos em negar. Do amor que ensinam pelas linhas retas do cuidado ou pelos erros que igualmente cometemos ao tentarmos o acerto.


Nós somos nossos pais pelas semelhanças, pela exatidão ou pelos avessos; o que aceitamos ou recusamos: nós os somos. E os pais são curtos, pois não se demoram o suficiente para que os aceitemos como uma das pontes para nós mesmos. À beira da vida, na procura do “eu”, eles estarão juntos e de algum jeito, trejeitos, memórias, genética, presença, ausência inclusive. Amaram como nos puderam amar. Assim como amamos como sabemos amar. Assim como não sabemos amar. Assim como insistimos saber. Os pais são curtos porque não nos dão tempo de nos consertarmos para perdoarmos seus defeitos que nos doem e para verdadeiramente agradecermos. Os pais são curtos porque os carregamos ignorando a humanidade de que todos somos (des)feitos. Os pais são breves pelas lembranças demais com que se revelam em nós.


Os pais são breves para celebrarem a tempo conosco o que ainda não encontramos, e que do mesmo modo buscaram para além dos seus próprios pais. A nós que resistimos tanto para aceitá-los. A eles que aceitaram ou não nossas resistências, não importa. A nós e a eles, aos pais e filhos que no papel de filhos e pais fizeram o que foi possível fazer, a gratidão possível de um homem ainda incompleto.




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