Quando falamos do setting¹ analítico estamos falando de um espaço constituído por duas pessoas: o analista e o analisando. Mas que lugar é esse? Lugar de escuta e de fala entre os dois integrantes. Um lugar de estruturação simbólica dos processos subjetivos inconscientes². De um lado o sujeito em análise com a sua demanda; do outro, o sujeito analista com a sua disponibilidade em escutar. Ambos regidos pelo inconsciente³.

Por que não falar em uma relação à três ao invés de dois? Ou seja, o analisando, o analista e o inconsciente através da fala do primeiro e das intervenções e escuta do segundo. Sobre isso, Lacan afirmou que: “Se a palavra é tomada como ela deve ser, como ponto central de perspectiva, é numa relação a três, e não numa relação a dois, que se deve formular, na sua completude, a experiência analítica” (1953-1954/1986, p. 20).

No setting analítico o sujeito que esta em análise pode ser ele mesmo, sem pré-conceitos, sem julgamentos, sem receios, sem elaboração do que vai ser dito, simplesmente deixar fluir o seu eu/inconsciente e deixa-lo vir à tona através da fala, seguindo a regra fundamental da psicanálise – a associação livre. O analista por sua vez não opina, não moraliza, não julga. Ele mantém a sua atenção (4) suspensa em relação ao conteúdo que o analisando transmite. Sobre o papel desempenhado pelo analista, Freud afirmou que:

Ele deve voltar seu próprio inconsciente, como um órgão receptor, na direção do inconsciente transmissor do paciente. Deve ajustar-se ao paciente como um receptor telefônico se ajusta ao microfone transmissor. (…) O inconsciente do médico é capaz, a partir dos derivados do inconsciente que são comunicados, de reconstruir esse inconsciente, que determinou as associações livres do paciente. (FREUD, 1912, p. 129).

Vale ressaltar o lugar do analista e do analisando no setting analítico. O analista cala o seu saber, ocupando o lugar da escuta analítica, para deixar o sujeito falar, permitir que o analisando se faça aparecer na cena analítica e descubra ser o protagonista dela. Tornando-se o sujeito protagonista, possibilita a sua descoberta quanto a ser sujeito de si, sujeito dos seus desejos. Dessa forma, o analista assume a posição de receptor enquanto o analisando o de transmissor, ambos conduzidos pelo inconsciente. O analista “… presença humana que escuta” (Françoise Dolto); o analisando responsável pelo desvelamento dos seus segredos mais íntimos que estão velados pelo inconsciente.

Leia Mais: Terapia em crise de transformação: Irvin D. Yalom e os novos pacientes e terapeutas

Ao final (se é que existe o fim), descobrimos que a análise e assim, o setting analítico assemelha-se a uma dimensão poética, por ser um ato criativo, de movimentação da vida a cada sessão, a cada discurso, a cada escuta, a cada silêncio, enfim, (5) a cada ato analítico o par – analista e analisando – cria e recria-se ao permitir que o inconsciente surja através do discurso e da escuta e também, das entrelinhas.

A trajetória que acontece no setting analítico pode ser associada ao caminhar, pois a análise proporciona encantos e desencantos no caminho percorrido pelo analisando e pelo analista. E o que falar para analista e analisando? Não insista em querer compreender ao “pé da letra”. E mais, com as palavras de (6) Antonio Machado prossigo: “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar.” Portanto, para ambos digo: Caminhe!

¹Traduzido no nosso idioma como enquadre.
²Em psicanálise, o inconsciente é um lugar desconhecido pela consciência: uma “outra cena” (ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel, 1998).
³“A comunicação que ali se instala entre o par analítico, liga os inconscientes e os corpos que ali dividem aquele espaço” (GOMES, 200-).
(4) Consiste simplesmente em não dirigir o reparo para algo específico e em manter a mesma ‘atenção uniformemente suspensa’ em face de tudo o que se escuta (FREUD, 1912, p. 125).
(5) Repetição proposital.
(6) Poeta espanhol.

Referências:
FREUD, Sigmund. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. In: ___O caso Schreber, artigos sobre técnica e outros trabalhos (1911 – 1913).
GOMES, Sérgio. O lugar do analista e do analisando: o silêncio na psicanálise II. Rio de Janeiro, 200-.
Lacan, J. (1953-1954/1986). O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

Compartilhar

RECOMENDAMOS




DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here