Mother talking to daughter in bedroom

Nossa ascensão, alimentada pela separação, ocorre não só à custa dos perdedores (vítimas das guerras, da indústria e do ecocídio), mas também dos “vencedores”. O preço é dos mais altos, pois vem do nosso próprio ser — pelo que construímos exteriormente, reduzimos nossas almas.

Quando nos separamos da natureza através da tecnologia, substituindo interdependência por “segurança” e confiança por controle, também nos separamos de parte de nós mesmos.

Sob a ilusão de um Eu discreto e separado, enxergamos nossas relações como algo externo à quem somos: uma simples associação de indivíduos discretos. Na verdade, nossas relações com outras pessoas — e com toda a vida — definem quem somos, portanto ao reduzir essas relações também nos reduzimos. Nós somos nossas relações.

A interdependência, causada por relações condicionais, é uma palavra fraca demais para essa não-separação entre “si mesmo” e o outro. Minha afirmação é mais profunda: “eu” não sou absoluto nem discreto, mas dependente, definido por relações com fronteiras tão fluidas que se confundem entre si — não há Eu, exceto em relação ao outro.

O homem econômico, o ator racional e o “eu sou” cartesiano são ilusões que nos distanciam de muito do que realmente somos, nos deixando solitários e pequenos.

Stephen Buhner se refere ao isolamento, proveniente da separação, como “ferimento interior”. Essa ferida, inerente à própria definição distorcida do “eu”, é inevitável senão por distrações temporárias, durante as quais inflama enquanto espera outra oportunidade de retornar à consciência.

Utilizando qualquer veículo ao seu dispor, a dor desse “ferimento” pode se manifestar das mais variadas formas: solidão onipresente, tristeza sem causa, raiva descontrolada, insatisfação constante, ressentimento profundo — consumindo a alma tal como um tumor. Inconsciente de sua verdadeira origem, atribuímos essa dor a um ou outro objeto, uma ou outra imperfeição do mundo exterior.

Procuramos, então, evitar a dor reprimindo seus veículos e manipulando tudo ao nosso alcance, intensificando esforços para manter a vida sob controle. Relacionamos felicidade ao isolamento total do perigo, confusão e desconforto.

Naturalmente, esse isolamento nos distancia ainda mais do mundo e, portanto, agrava ainda mais a separação — real origem da dor. “Não queira cobrir o mundo em couro, calce seus sapatos” é um clichê espiritual que prega, de forma simples, algo bem interessante e revela a enorme dificuldade de se encontrar a felicidade nas tentativas de manipular o mundo como nos convém. Esse tipo de “felicidade” é temporária, fadada a desaparecer, mas é assim que agimos, culturalmente e individualmente, na maior parte do tempo.

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A futilidade desse “programa de controle total” se expõe de forma irrefutável no fenômeno do tédio, que nos revela a condição humana decorrente do seu sucesso. Afinal, qual o estado fundamental ou padrão do ser humano quando tudo está sob controle, quando não há nenhum sinal de ameaça iminente? O que acontece se ficarmos aqui sentados, sem nada pra fazer e nada que precise ser feito?

O tédio é tão endêmico em nossa cultura, particularmente entre os jovens, que acreditamos ser um estado quase universal da existência humana. Na ausência de estímulos externos, ficamos entediados. Mas de onde vem o sentimento que chamamos de “tédio”, o tal desconforto de não ter algo pra ocupar nossa mente ou corpo?

A sensação de “não ter nada pra fazer” (o tédio) é intolerável, pois nos coloca frente a frente com o ferimento da separação. Aquela ânsia por estímulo, distração ou algo pra passar o tempo, é a forma como experimentamos qualquer pausa na busca por controle — nosso remédio predileto para ignorar a dor e o sofrimento.

Não estou sugerindo se entregar ao sofrimento, apenas buscar a consciência de suas causas. A dor é como uma mensagem, “não faça isso”, e somos sensatos em ouvi-la. Mas vamos longe demais ao supor que conseguiremos ignorá-la por muito tempo. Há um ditado budista que diz: “Uma pessoa comum evita os sintomas, um bodisatva, as causas.”

O tédio não era nem mesmo um conceito antes da própria palavra ser inventada, por volta de 1760. Desde então, a crescente onda de tédio coincide com o progresso da Revolução Industrial. A realidade criada pelo sistema fabril reflete os aspectos da produção em massa: uma realidade genérica composta de produtos padronizados, funções padronizadas, atividades padronizadas e, até mesmo, vidas padronizadas.

Quanto mais vivemos nessa realidade artificial, mais separados nos tornamos do fascinante reino da natureza e da comunidade. Hoje, seguindo esse mesmo padrão, aplicamos ainda mais tecnologia para aliviar o tédio resultante da imersão na própria tecnologia — esse ciclo é o que chamamos de “entretenimento”.

Já parou pra pensar nisso? “Entreter um hóspede” significa trazê-lo pra sua casa. “Entreter um pensamento” significa trazê-lo pra sua mente. “Ser entretido” significa ser levado pra dentro da televisão, do jogo, do filme; significa ser deslocado de si mesmo e do mundo real. Quando um programa de TV faz isso com sucesso, o aplaudimos por nos entreter. A ânsia cada vez maior por entretenimento sugere o empobrecimento da nossa realidade.

Todas as causas do tédio são variações do ferimento interior da separação. Além do empobrecimento da realidade, nos sentimos desconfortáveis em “não fazer nada”, culpados pela ansiedade implacável que domina a vida moderna.

Isso, por sua vez, surge do paradigma de competição por trás das nossas estruturas socioeconômicas, reflexo da nossa concepção distorcida de “si mesmo”. Desejamos estímulo constante e entretenimento, pois em sua ausência nos sentimos sozinhos e sem nada para nos distrair, além de nós mesmos, da dor que vem desse ferimento.

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Para completar, a tecnologia contribui diretamente para o tédio, nos bombardeando com uma enxurrada de estímulos intensos e habituando nossos cérebros a um alto nível de excitamento. Quando faltam estímulos, sofremos abstinência — uma vez viciados num reino humano artificial criado pela tecnologia, nos sentimos cada vez mais forçados a mantê-lo.

Esse vazio, essa dor latente que espera por qualquer oportunidade para se manifestar não é tão surpreendente, visto que a maior missão da tecnologia é maximizar o prazer, o conforto e a segurança, além de evitar qualquer sofrimento imediato.

O ímpeto de tornar a vida mais fácil, segura e conveniente é o que motiva a tecnologia desde o princípio. Os novos avanços são cada vez mais eficientes. A vida se tornou mais fácil. Hoje, vamos à farmácia aplicar tecnologia para aliviar qualquer desconforto, não importa quão pequeno.

Dor de cabeça? Tome uma aspirina. Nariz escorrendo? Remédio pra gripe. Depressão? Beba até cair. Há uma suposição implícita de que não precisamos sentir dor. A maior conquista da tecnologia seria descobrir algum meio para eliminar, de uma vez por todas, a dor e o sofrimento.

David Pearce aborda algo parecido em sua “missão hedonística”. Ele defende a extinção completa do sofrimento através da engenharia genética, nanotecnologia e neuroquímica, desativando os receptores da dor, estimulando as zonas de prazer e assim por diante, tal como pressuposto pelas “drogas da felicidade” atuais e por todo o aparato médico que busca eliminar, ou aliviar, apenas os sintomas — ignora-se as causas.

Drogas psicoativas são aplicadas com a premissa de que a real causa da angústia são os baixos níveis de serotonina e noradrenalina no cérebro. Aumente o nível desses neurotransmissores e, pronto, a angústia desaparece — o tratamento é um sucesso!

Por trás da suposição de que “não precisamos sentir dor” se encontram outras ainda mais profundas. Uma delas é a desconexão. Baixos níveis de serotonina são considerados de forma isolada em relação ao todo, assim como a peça quebrada de um carro.

Esse paradigma mecanístico ignora a natureza orgânica do corpo humano, em que a saúde de qualquer parte reflete a saúde do todo; ignora que existem razões para os baixos níveis de serotonina, e razões para as razões, espalhando-se como uma teia de razões que abrangem todo o ser do paciente.

Há outra suposição relacionada à desconexão, a de que vivemos em um universo morto e sem propósito. Eventos ocorrem ao acaso. Não há nenhum propósito maior tornando cada evento significante e certo.

Assim, a depressão não serve um propósito maior, pois não existe tal coisa. Não há razão para depressão exceto pelo que é identificável, por fatos e dados, e portanto nenhum motivo para supor que a dor retornará uma vez que seu veículo atual for bloqueado. A realidade é infinitamente controlável.

Se, no entanto, considerarmos a tecnologia, individualmente e coletivamente, como um meio não para extinguir a dor, mas para retardá-la, então se torna óbvio que essa mesma dor continuará a existir, esperando por qualquer momento de ócio. Isso se torna ainda mais evidente quando o próprio esforço em retardar a dor acaba gerando uma nova dor. Novos problemas causados por tecnologias desenvolvidas para solucionar os anteriores — como sintomas causados pelo próprio remédio.

Na vida cotidiana, felicidade e segurança vêm de fortes conexões com a família, comunidade, natureza, lugares, espírito e consigo mesmo, e não de uma “independência”, seja psicológica ou financeira.

A história da tecnologia é uma longa saga que veio ampliando a separação da natureza (por nos acharmos superiores, cegos pelas maravilhas do progresso), da comunidade (pela especialização e produção em massa), dos lugares (pela alta mobilidade e incentivo à atividades em ambientes internos) e do espírito (pelo predomínio do paradigma científico Newtoniano).

Logo, não se admira que a dor da condição humana só tenha aumentado durante a era moderna. Ainda que as dificuldades físicas tenham definitivamente diminuído, o sofrimento psicológico na forma de solidão, desamparo, depressão, ansiedade, angústia e irritação tem crescido em proporções epidêmicas. Mesmo quando a tecnologia consegue conter as consequências externas da separação, ainda a internalizamos como “ferida” — uma separação da nossa própria alma.

Uma última indicação da natureza desse “ferimento” se encontra no fenômeno da ganância. Ao perguntar sobre a origem de problemas globais como, por exemplo, a poluição, a ganância sempre figura entre as respostas, vista como característica fundamental da natureza humana — algo que pode até ser controlado, mas nunca eliminado.

A ganância, assim como o tédio, era inexistente em muitas culturas antigas sob um conceito diferente do Eu. A cobiça é uma mera tentativa de preencher um vazio e amenizar a dor da separação, como se o acréscimo de mais e mais de “si mesmo”, na forma pertences, pudesse compensar a profunda negação do Eu que é a separação.

De maneira reveladora, muitas vezes usamos metáforas gananciosas para as formas de distração do desconforto existencial que chamamos de tédio: fumar um cigarro ou tomar uma cerveja, todos no sentido de “ter” algo pra fazer. É pra “ter” que também lutamos por estabilidade, seja material (ter bens) ou interpessoal, até mesmo ao ponto de “ter” sexo.

A verdade? Não importa o quanto se acumule como um Eu discreto e separado, ele continuará essencialmente sozinho no universo.

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Bruno Braz
Engenheiro Químico (UFSCar-SP) e graduando em Psicologia (FMU-SP). É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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