Após algumas semanas com sintomas. Após alguns dias com Raio X alterado. Após longas horas de dúvida, chegou o momento da biópsia, o momento da certeza.

Para os médicos a biópsia marca o diagnóstico. O próximo passo são os exames para avaliar a extensão do tumor para aí sim poder desenhar o tratamento.

Para o paciente e sua família a biópsia significa o início de uma longa jornada, uma jornada que não sabemos ao certo aonde vai dar. Neste momento a dúvida se é câncer passa a ser uma certeza. E as certezas da vida passam a ser dúvidas. Tem tratamento? Tem cura? Como foi minha vida? Deu tempo de fazer o que precisava ser feito?

Nesse momento o chão treme, o medo chega as lágrimas escorrem. Os problemas anteriores passam a ser mera distração. A dor na alma é mais forte do que a dor no corpo.

Nesse momento frio o tempo para. Nossas vidas entram em suspensāo. Nossos planos são congelados. Temos medo dos nossos sonhos terminarem antes do que nossas vidas.

A biópsia não atinge apenas o paciente. A biópsia atinge toda família. Todos ficam doentes. Todos sentem dor, tremem e choram. Todos precisam buscar energia para se levantar, sacodir a poeira e se organizam para batalha que se inicia.

Não bastassem as dúvidas em relação a doença, chegam as dúvidas relacionadas ao próprio tratamento. Palavras pesadas como quimioterapia, radioterapia e cirurgia entram em nossa vida sem pedir licença. Um paradoxo. Colocamos nossas esperanças em tratamentos que podem nos machucar.

Com sorte, com o passar do tempo, conseguimos redescobrir a importância das coisas simples da vida como um sorriso, um abraço, um amigo, uma tarde de preguiça ou uma noite bem dormida. Muitas vezes as coisas importantes da vida ficaram esquecidas ao serem atropeladas pela correria do dia a dia. Após a biópsia trocamos as lentes de como enxergamos a vida.

A notícia do câncer corre rápido, feito rastro de pólvora. Muitas pessoas querem ajudar, uma minoria apenas futricar. O câncer sempre é uma notícia forte.

Como cantam Toquinho e Vinícius numa das mais lindas músicas brasileiras: “Aquarela”.

“E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda a nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar”

Certamente a biópsia marca o início de uma longa jornada.
Nesta jornada as orações são sempre bem-vindas.

Autor: Dr. Tulio Eduardo Flesch Pfiffer, oncologista

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