O amo é um sentimento complexo e com múltiplas facetas. Uma das temáticas mais discutidas na humanidade seja pela arte, poesia, filosofia, medicina, psicologia ou psicanálise. Para compreender o amor, acabamos colocando-o em caixinhas como o amor familiar, o amor erótico, o amor da amizade, o amor pelo conhecimento, mas talvez o amor seja uma mistura de todos esses núcleos das vivências humanas que instiga o ser humano à criação e à vida.

No que diz respeito aos relacionamentos amorosos afetivos e sexuais, podemos compreendê-los enquanto vivências significativas que ocupam um lugar de destaque na vida de muitas pessoas, exercendo uma função vincular forte e até mesmo necessária para uma maior qualidade de vida. Entretanto, o conceito de amor e amar, algumas vezes, perde seu potencial de aconchego e bem-estar quando se descaracteriza para cumprir a função ideal de um romantismo paranoico ou narcisista.

Há no imaginário popular a ideia de que enamorar-se é algo como um encontro completo entre corpos e almas, isso até pode ser poético, mas é preciso pontuar que esse tipo de pensamento exclui do relacionamento humano as limitações entre o Eu e o Outro. O Outro acaba perdendo sua própria autonomia e deve viver exclusivamente para o Eu, e o Eu só é vivo porque o Outro vive. Com isso há o rompimento de um elemento fundamental para qualquer relação amorosa saudável: a liberdade em amar.

Muitos relacionamentos acabam tendo, mesmo que minimamente, algum grau de tais elementos abusivos. Sabemos que é comum ouvir frases como: “ele(a) não poderia ter feito isso comigo”; “ele(a) não pode ir sem minha autorização”; “ele(a) é meu/minha”. É um pouco mais sério quando, em alguns casos, não há tais colocações em explícito, mas a sutil mensagem acaba sendo a de posse, de objetivação, mascarando toda real potencialidade do amor.

Já dizia Rubem Alves: “alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas… Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços. O amor só é amor quando é livre”.

O Outro tem seus próprios desejos e isso não exclui em nada a possibilidade de relações fortes e duradouras, pelo contrário. O tão amado pássaro encantado, que sempre retorna mesmo podendo voar, se for aprisionado, ainda que em uma gaiola de ouro, ele parará de cantar, pode até morrer, pois perdeu sua liberdade e a possibilidade de viver a vida de modo criativo.

O amor não se limita a regras ou teorias, tamanha sua diversidade e complexidade. Diferente de algo abusivo, o amor pode ser maduro, preservando a individualidade e respeitando a autonomia de cada amante. Proporcionando o desfrute de sensações, vivências, reações físicas, emocionais, vinculares, afetivas e sexuais.

Segundo Freud “devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em consequência da frustração formos incapazes de amar”. O amor é uma necessidade humana plural e vital que merece ser vivida de modo pulsante, instigante, oportunizando vivências do dia a dia, nem sempre prazerosas, mas relacionadas ao processo de amadurecimento pessoal de cada um dos envolvidos pelo laço do amar.

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João Paulo Zerbinati
Psicólogo clínico de orientação psicanalítica, atendendo em Itápolis-SP. Graduado pela PUC (2014). Mestre pela Faculdade de Ciências e Letras, UNESP (2017). Membro do grupo de pesquisa SexualidadeVida USP\CNPq. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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