Cuidado! O artigo apresenta spoilers! Hang the Dj, o quarto episódio da quarta temporada de Black Mirror defende uma tese antiga apresentada pelo célebre cineasta espanhol Luis Buñuel: amor e revolta são as palavras mais revolucionárias que existem.

Durante praticamente todo o episódio fica a sensação de que será mais uma dispotia com final amargo. Nas três primeiras temporadas, Black Mirror nos mostrou um mundo sem saídas, em que a menor quebra protocolar gera transtornos irremediáveis. Nada fica impune no universo Black Mirror: desde pequenos equívocos até crimes de fato.

A tecnologia que deveria agregar valor à nossa vida vira uma espécie de Grande Irmão tirânico sempre pronto a punir numa sociedade marcada pelas não-relações.

Em Hang the Dj, a série brinca e rompe com seus próprios limites, deixando um feixe de luz entrar pela imaginação do espectador. O episódio gira ao redor de um aplicativo que une casais, uma espécie de Tinder. Porém, com uma grande diferença: as uniões são por tempo determinado pelo próprio aplicativo, que pode determinar um romance de apenas 12 horas com uma pessoa incrível e outro de um ano com alguém insuportável.

Depois de viverem muitas relações, o aplicativo indica o parceiro ideal. Mas será que o aplicativo faz realmente uma boa escolha? Em um encontro motivacional, um casal extremamente feliz afirma categoricamente que o aplicativo é um sucesso. Mas, apesar, das animadoras estáticas do aplicativo que apontam para um Índice de sucesso de 99,8%, o episódio mostra cenas bem angustiantes de relações relâmpago, em que o sexo é mecânico, sem nenhum tipo de afinidade ou afetividade, transformando algo que deveria ser empolgante num ritual tedioso e até mesmo deprimente.

Apenas no desfecho do episódio, personagens e espectadores matam a charada. As pessoas não estão tão á mercê do aplicativo como o próprio aplicativo as faz pensar! E é aí que tem a grande sacada! Tanto no universo distópico de Black Mirror quanto na nossa realidade, somos impedidos de ficar com quem amamos apenas se nós assim permitirmos.

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Sílvia Marques
Profa. doutora , idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU, escritora e psicanalista. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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