Como melhorar nossa força de vontade? Essa pergunta não interessa apenas a nós, pessoas comuns, mas também a uma grande variedade de pesquisadores que têm, nos últimos anos, realizado investigações para tentar explicar as facetas que compõem a força de nos manter firmes em busca de nossos objetivos.

A maioria dos cientistas do comportamento, inclusive, tem procurado compreender como a determinação pessoal, que carregamos ao longo de toda uma vida, pode ser fortalecida de alguma maneira.

Para quem não sabe, um experimento clássico, realizado há mais de quarenta anos, usou marshmallows –aquele doce comum nos Estados Unidos — para dar início a essas investigações.

Nele, se ofereceu a crianças em idade pré-escolar a opção de consumir, imediatamente, um doce, ou tentarem se controlar, depois de um determinado tempo para, então, poderem pegar dois.

Descobriu-se que as crianças que olhavam diretamente para os doces foram as que apresentavam um menor poder de resistência à tentação, ou seja, se comparadas àquelas que fechavam os olhos, se afastavam, ou ainda se distraíam, as que ficavam mais próximas e em contato direto com os doces fracassavam mais frequentemente.

Concluiu-se assim que manter os estímulos “perigosos” afastados de nossa visão tem o poder de aumentar nosso autocontrole.

A partir desse momento, outros achados importantes começaram a ser descobertos e, atualmente, auxiliam-nos no manejo das mais variadas coisas. Por exemplo, outra tática útil para melhorar o autocontrole é o que se denominou de “intenção de implementação”, ou seja, quando nos preparamos antecipadamente para as situações que vão nos colocar em teste, podemos, através de um simples recurso, aumentar a nossa força de manejo.

Assim sendo, vamos imaginar que você está tentando não beber, mas, digamos, tem uma festa para ir. Descobriu-se que recorrer a certas autoinstruções (pensamentos) pode se tornar uma ferramenta bastante útil.

Eu explico.

Nesse caso, poderíamos antecipadamente nos preparar e organizar nosso pensamento da seguinte forma: “Se alguém me oferecer uma bebida, eu não aceitarei e pedirei uma água ou um refrigerante”. Assim, descobriu-se que ter em mente um “plano prévio de contra-ataque” empregado através das autoafirmativas – do tipo “se tal coisa acontecer, então eu agirei desta outra forma” -, permite que tomemos decisões mais sensatas no calor do momento, aumentando, portanto, nossa capacidade de sustentação comportamental e, obviamente, de enfrentamento.

Em outro experimento, pesquisadores pediram aos voluntários que fizessem um regime de duas semanas para medir a ingestão de alimentos, melhorar o humor e até para aprimorar a postura individual de cada um. No primeiro grupo, os participantes haviam praticado certos exercícios de autocontrole, enquanto que no outro grupo, nenhuma técnica foi treinada.

O resultado mostrou que os participantes que haviam efetuado os exercícios de autocontrole foram os menos vulneráveis a desistir das tarefas e, portanto, mais robusta se tornou a força de vontade de cada um.

Em outra investigação similar, descobriu-se que fumantes que praticaram por duas semanas táticas de autocontrole foram os mais bem-sucedidos em parar de fumar do que os de outro grupo que não praticaram nenhuma atividade.

Um ponto interessante a ser ressaltado é que, ao tentarmos adiar nossas gratificações, não ganhamos robustez psicológica, apenas junto aos estímulos situacionais, mas tal “habilidade” se expande para outros níveis de nossa vida.

Sistema quente e frio

Os experimentos com os marshmallows levaram os pesquisadores a desenvolver uma estrutura mais pormenorizada para explicar a capacidade de retardar nossa gratificação. Denominada de sistema “quente e frio”, tal metáfora explica por qual razão nossa força de vontade pode, muitas vezes, ser bem-sucedida ou fracassada.

Por partes, então.

O sistema “quente” seria o responsável por respostas rápidas, decisões emocionais e impulsivas frente a certos gatilhos — como, no caso do exercício dos doces, levar o marshmallow à boca sem refletir muito a respeito das implicações a longo prazo. Já o sistema “frio” é um sistema de pensamento que, incorporando um conhecimento lógico sobre nossas sensações, sentimentos, ações e objetivos –ao lembrar, por exemplo, porque não deveríamos comer o marshmallow –, nos faz ter uma previsão mais clara e racional dos desdobramentos futuros de certas ações que tomamos no presente. Portanto, enquanto o sistema “frio” é reflexivo, o sistema “quente” é impulsivo e emocional.

Usando a velha alegoria, o sistema “frio”, portanto, seria aquele anjo sentado sobre nosso ombro direito que nos induz a pensar duas vezes antes de agir, enquanto que o sistema “quente” seria o diabinho em nosso ombro esquerdo nos dizendo para agir imediatamente e deixar as consequências para outra hora, pois “não teremos outra oportunidade”. Desta maneira, quando nossa força de vontade (sistema “frio”) falha, o comando do sistema “quente” anula o sistema frio, levando-nos a ações mais impensadas.

O que não se sabia, mas foi então descoberto, é que essa habilidade ou fracasso de manejarmos o sistema “frio” e “quente” não influenciou as pessoas apenas durante os experimentos, mas permanece ativo nos sujeitos durante toda a vida.

Quando os pesquisadores do experimento do marshmallow buscaram as crianças novamente, agora adolescentes, descobriram que aqueles que tinham esperado mais para os doces na fase pré-escolar, agora se saíam melhor em testes gerais de habilidades e, mais do que isso, seus pais eram os que mais relatavam suas habilidades em lidar com as situações e mais propensos a classificá-los como tendo uma maior capacidade de planejamento, enfrentamento do estresse, exibindo maior autocontrole, se comparados aos demais.

O ponto alto foi que o estudo dos marshmallows não terminou aí. Veja que interessante. Recentemente, os pesquisadores buscaram e conseguiram achar 59 indivíduos, agora com 40 anos, que participaram dos experimentos com marshmallow quando crianças. Os pesquisadores, claro, não deixaram a oportunidade passar e testaram novamente a força de vontade dos participantes, através de uma tarefa de laboratório que tinha como objetivo medir o autocontrole em adultos.

Os achados? Veja que interessantes!…

As diferenças de força de vontade dos participantes se mantiveram inalteradas por mais de quatro décadas, pois, em geral, as crianças que tiveram menor sucesso em resistir aos marshmallows durante todos esses anos, foram as que menos pontuaram nas tarefas que avaliavam o autocontrole em adultos, revelando que essa habilidade, na verdade, pode persistir durante muito tempo.

Conclusão

Assim como nosso corpo físico que é reforçado pelo exercício regular, o autocontrole psicológico pode melhorar nossa força de vontade ao longo do tempo, se praticados e empregados com a devida consciência. Mais do que isso, a robustez de empenho que mostramos das menores às maiores coisas, no fundo, nada mais é do que a capacidade de resistirmos às gratificações de curto prazo para que possamos colher metas e objetivos maiores a longo prazo.

Estamos falando, em outras palavras, a respeito da resiliência psicológica, tão importante em nossos dias.

A força de vontade, conforme vimos, mais do que apenas revelar uma capacidade de manejo pontual em uma dada situação específica, na verdade está correlacionada aos resultados positivos em vários outros domínios de nossa existência, como, por exemplo, uma melhor performance acadêmica, uma maior autoestima, as menores taxas de uso e abuso de substâncias, a maior segurança financeira e, finalmente, a uma melhor saúde física e mental, conforme apontam várias pesquisas científicas.

Assim sendo, se a habilidade de nos autocontrolarmos se torna incorporada em nossa personalidade, por que não tentamos, de uma vez por todas, começar a executar nossas pendências, em vez de sempre procrastinarmos com uma desculpa qualquer?

Caso você ainda não tenha se dado conta, é possível que todas as vezes que falhamos nas pequenas coisas de nosso cotidiano –por exemplo, fazer um pequeno regime ou estudar um pouco mais que seja –, na verdade, estamos consolidando uma tendência enfraquecida, semelhante ao galho de uma árvore que cresce torto, mas que trará dificuldades a longo prazo.

Pense nisso como um estímulo para aperfeiçoar sua força de vontade e, mais do que nunca, melhorar a si mesmo.

Fonte: American Psychological Association (2018)
Fonte: https://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/

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Cristiano Nabuco
psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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