Mais um ano vai chegando a seu fim. É momento de rever o que passou e planejar um ano novo. Cada ano que vem e chega sorrateiramente é um convidado bem-vindo para que realizemos novos planos, construamos nova vida. Entretanto, como o ano que está terminando fica nessa história?

Após um ano de muitas batalhas, derrotas e vitórias é mais do que natural que digamos um sonoro “já vai tarde!” para o ano que se encerra. Já tive minhas conquistas, me frustrei, já me esforcei… e agora ele acabou. O que eu quero, claro, é um recomeço dos meses, dos dias, dos sonhos. O ano que passou já deu tudo o que tinha que dar, certo? Errado. Posso dar mais de um fundamento para essa posição.

Primeiramente, o ano que passou é um manancial imensurável de ensinamentos muito úteis. O que posso eu tirar das realizações bem-sucedidas de meus objetivos? Quando, por exemplo, eu estudei, estudei e consegui concluir minha graduação, acabo mostrando para mim mesmo como eu tenho capacidade de adquirir conhecimento, conseguir um diploma, me capacitar para uma determinada profissão de nível superior de ensino.

Posso também aprender muito com minhas frustrações. Por exemplo, quando me decepcionei pelo fato de não ver meus filhos seguindo a profissão que eu sonhei para eles, certamente estou entendendo, em meio a essa dor, que meus filhos são livres e tem direito de escolha. São diversos os ensinos que 365 (quiçá 366) dias de um ano podem oferecer a quem está atento a eles.

Da mesma forma, a percepção de mim mesmo é algo muito profundo que o ano que finda tem a me ensinar. Esse ensinamento é mais raro e menos perceptível e direi o porquê. Quando anseio pelo ano novo, eu costumo guardar os fatos do ano anterior e negligenciar a grande maioria das suas sensações. Não quero mais pensar na angústia que senti diante de fulano, da raiva que senti de ciclano, ou do medo que senti ao precisar enfrentar isso ou aquilo. Sensações desagradáveis, que eu gostaria de deixar para trás. Mas justamente elas, que por serem desagradáveis são algumas das mais intensas, são as que mais tem a me ensinar.

Vitor, como assim? Está me dizendo que as sensações desagradáveis são importantes assim? Espero que não diga que eu devo busca-las em meu dia a dia, ein! Não, de forma alguma. Não é nada natural uma pessoa buscar o que a faz mal. Entretanto, as sensações desagradáveis (falo aqui principalmente das angústias de maneira geral, mas não somente elas) aparecem naturalmente nos embates da vida. E elas, incrivelmente, tem muito a ensinar. Encarar sem medo a dor e as fragilidades que trazemos nos ensina coisas que nem podemos imaginar.

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Quando eu vejo minha angústia, “de frente”, ela perde sua força e pode até sumir. Se eu me sinto angustiado ao ver o dinheiro terminando no fim do mês, por exemplo, e encaro e aceito meu receio de ficar sem nada, surge em mim um desejo de economizar, naturalmente. De forma similar, quando o dinheiro está no fim e eu gostaria de comprar algo caro, e eu vejo e sinto a minha angústia, surge naturalmente uma solução serena para a situação (seja deixar para outro mês, planejar um empréstimo, etc.), mas sem revolta para com a situação desfavorável. Encarar a dor inevitável, paradoxalmente, faz a vida mais leve.

Quando não quero encarar o lado “velho” do ano que passou, o ano “novo” é só uma fuga daquilo que eu não quero mais sentir. Afinal, se tive muitas angústias afetivas nesse ano, ano que vem vou me relacionar sem nenhum compromisso emocional. Se tive pouco dinheiro em mãos, produzirei muito a partir do próximo janeiro.

Ótimo, tudo é válido como possibilidades e aprendizados, mas e o ano que passou? Fica esquecido como um capítulo de menor importância de minha vida. Quando nele estão todas as bases para um ano novo mais inteiro e verdadeiro.

Com relação aos exemplos acima, podemos supor as seguintes compreensões: ao encarar minhas carências emocionais, posso perceber como deixo de me valorizar nesse e em outros aspectos da vida. E ao perceber meus receios financeiros, consigo perceber que caminho estou mais propenso a percorrer para buscar meu sustento, e não busco qualquer um de forma precipitada.

O ano velho se vai, deixando cicatrizes valiosas. Verdadeiros mapas para os melhores planos e resoluções que alguém pode fazer para o ano porvindouro. Renove-se e se permita renascer diante daquilo que passou e que você nem sempre quer ver. Assim surge, integralmente, o ano novo.

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Vitor de Moraes Silva
Psicólogo, reside no Rio de Janeiro e é colunista do site Fãs da Psicanálise.


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