Passei hoje pela rua da sua casa, e pela primeira vez ri sozinha da cena que acontecia ao vivo naquele momento que facilmente poderia passar batido, mas não passou. O rádio tocava um sertanejo qualquer, desses que nos faz sofrer mesmo não estando apaixonado, e a noite de lua nova me fez lembrar seus olhos escuros.

Há quanto tempo eu não sei sobre você? Me perdi na contagem dos dias, e sinceramente, já não sei mais dizer se era manhã ou fim de tarde quando trocamos nossas últimas palavras.

Eu te amei com a força da correnteza de um rio que empurra troncos de árvores apenas com o movimento das águas, e transformei a profundidade desse sentimento no que havia de mais bonito em mim. Investi nas suas histórias meus minutos, e nos seus braços, cada centímetro meu.

Atribuí a você cada um dos meus risos fáceis, e dediquei ao seu nome as amenas e principalmente as fortes batidas do meu coração. Fiz da vida um palco onde você era minha principal estrela, e o show era poder te encontrar.

Eu expus cada uma das minhas fraquezas, porque ali, num infinito segundo, tendo os seus olhos nos meus, o mundo parecia menos difícil, e dediquei cada um dos meus versos mais bem escritos ao efeito causado pelo teu ‘bom dia’.

Eu te reconheci em mim, em cada sentimento e defeito, e numa perfeição imperfeita, percebi que dia pós dia, te olhando ou querendo, não deixava te amar. Mas foi nesse mesmo pulso, no impulso de me aprofundar no teu ser que eu percebi que tentava mergulhar onde a água era racionada, e cá entre nós: quem se faz de navio precisa sempre ter mar.

Demorou a eu aceitar que nossos tempos não estavam sincronizados. Eu queria seus inteiros, e entregava meus excessos na expectativa de lhe fazer perceber que um amor desses não se encontra numa esquina do centro da cidade, mas na contra mão de minha ideia, isso te assustava.

Insistia em segurar sua mão tentando fazer nossos caminhos serem os mesmos, mas as linhas, por paralelas que sejam, sob qualquer distância não se tocam, e as nossas – na maioria dos dias – estavam a continentes uma da outra, mesmo a distância física sendo pouco mais que uns minutos de carro.

Criava assuntos tentando tornar num diálogo o que claramente era monólogo. Me agarrava a qualquer indício de mudança da situação, e acabava por tornar ainda mais difícil o processo de aceitação sobre aquilo que talvez um dia até seja, mas até hoje não foi.

Eu rompi comigo mesma na busca pelo nosso amor, até perceber que toda aquela perseguição não seria suficiente, pois quem quer estar, permanece, mas quem não quer, nem mesmo correntes são capazes de prender.

E foi por isso que eu decidi abrir todos os cadeados e jogar fora as chaves, dando a você o direito de usufruir de sua liberdade, sem ninguém tentando lhe puxar para trás.

Não me entenda mal, foi uma escolha difícil, talvez a mais difícil que tenha feito até hoje, mas a decisão não era entre lutar ou desistir, e sim entre forçar ou deixar ir, e quando considerei suas ausências e afirmações, percebi que se forçar era uma opção, então você nunca seria realmente meu.

Eu não te esqueci, nem vou esquecer, mas meu bem, a vida continua, e para que nossos mundos girassem, foi preciso pôr fim às dúvidas e frases meio ditas. É claro que permanecer era uma opção, mas a consequência disso talvez fosse uma grande insatisfação dos dois lados, e eu nunca quis isso pra gente.

É inevitável pensar em você, mas agora esse pensamento já não tem mais peso. Você se tornou uma memória, como um post-it afixado em um local importante com a finalidade de me lembrar sobre um assunto a ser resolvido, mas tudo bem deixar isso para outra hora, porque o post-it já não tem data, nem sinal de urgência.

Eu não te esqueci, e ao fechar os olhos ainda enxergo com perfeição o brilho dos seus olhos encontrando os meus. É forte o aperto da saudade, mas ainda mais forte é a certeza por saber que fiz por você e por nós dois tudo o que podia (e mais um pouco), e isso por si só traz ao meu coração a paz necessária para continuar.

Não vou te esquecer. Em cada novo sorriso vou encontrar um vestígio teu, e só de topar com seu nome me perco no ar por alguns segundos. Não vou esquecer seu beijo longo, nem sua mania de dizer que eu estava errada, mas acima de qualquer coisa, não vou esquecer que você me deixou partir, e isso me lembrará que tomei a decisão certa por nós dois.

Mas meu bem, a vida continua, e ela nos aguarda numa chuva de primavera, ou num semáforo enquanto atravessamos a avenida principal. Num abraço desajeitado, ou num fim de tarde encarando a partida do sol. A gente se encontra (e sabe disso), mas por hora, você tem seu rumo, suas escolhas, seus amores, e eu tenho a mim, minhas certezas e felicidades.

Eu não te culpo pelo que não foi, mas sinto pelo que poderia ter sido. Talvez se você fosse menos desapegado e eu menos romântica, nosso fim seria outro. Talvez se você fosse mais decidido e eu menos casual… Mas a casualidade não cabe a todos. Eu mesma, se não posso mergulhar fundo, prefiro nem experimentar a água, enquanto você adora um banho rápido.

Por fim nossos dias de apaixonado se vão com a rapidez de um pássaro que vai de uma árvore à outra, e o que fica é apenas o que foi vivido. Ficam para trás nossos contatos, risadas, confissões e silêncios; vão adiante de nós nossos destinos, um passo de cada vez, até que os caminhos se cruzem numa nova estrada.

Você foi meu capítulo mais bonito, mas poderia ter sido toda uma história. Foi minha música mais tocada, mas poderia ter sido a única a tocar. Você foi meu grande amor, e se quisesse, teria sido o único. Agora eu só espero que em qualquer lugar seu coração esteja em paz e sua alma, em sintonia com seus desejos.

Desejo que não lhe falte amor, e que todos os dias você se encontre consigo e que aceite cada uma das suas próprias condições. Você vai me ver bem, e eu quero que esteja bem também, porque eu não te esqueci, nem vou esquecer, mas meu bem, a vida continua, todos os dias.

(Imagem: REVOLT)

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Raquel Gonçalves
Há quem diga que os olhos são a janela da alma, então, no meu caso, eles são uma janela bem grande e aberta. Amante das artes, do universo e das palavras, necessito de música para viver, dos astros e estrelas para pulsar e dos versos para existir. A publicidade me escolheu; por isso anuncio paz, promovo sorrisos e transmito intensidade. Sou colunista do Fãs da Psicanálise.

1 COMENTÁRIO

  1. Caracas,isso foi simplesmente maravilhoso,parecido com oque eu vivo no momento,mas,as palavras escritas aqui,foram fo……..aaaa!!!

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