Nós endeusamos algumas pessoas, relacionamentos e/ou situações e provavelmente, porque de algum modo, estamos distante dos mesmos. Quem nunca se pegou pensando em quão incrível seria se tornar um astro do rock? Mas já parou para pensar quantos deles, apesar de brilhantes, mal chegaram aos trinta? Já pensou na quantidade de coisa que isso envolve?

Talvez isso se dê porque nossa relação é com o artista e não com a pessoa, esquecemos que a vida dele não é só palco, festividades e aparência. Esquecemos que ele é antes e mais importante de tudo, humano e não só uma construção midiática “chinfrin”.

Agora que já exemplifiquei, gostaria de levar esse assunto ainda mais além, mas trazê-lo para mais perto. Tem pessoas que colocamos em pedestais pelos seus rótulos sociais, como é o exemplo das mães. Na cabeça da maioria das pessoas, para definir o conceito de mãe viriam palavras como: amor, afeto e cuidado. Porém nos esquecemos, que assim como os artistas, as mães, antes de tudo são humanas. E ser humano é ser falho, essa é uma condição básica.

Há um livro que se chama “Um amor conquistado: o mito do amor materno”, da autora Elisabeth Badinter, que conta como o amor de mãe foi construído e modificado com o passar dos séculos, deixando claro que esse sentimento não é intrínseco a natureza feminina.

Para trazer mais dados, cito ainda outro livro, agora de Philippe Ariès, chamado “História Social da Criança e da Família” que afirma que foi necessário esperar quase até o século XVIII para que se instalasse o “sentimento de infância”, ou seja, a consciência de que a infância traz particularidades e por isso precisaria de cuidados (como afeto, higiene e educação). Antes disso, não havia porque se aproximar ou criar vínculos, afinal, não existia criança.

Ou seja, o amor materno como conhecemos atualmente, é aquisição bem recente. A crença do amor materno instintivo, imaculado e incondicional tem importantes consequências no exercício da convivência entre pais e filhos e na dificuldade que se observa quando se apresentam modificações nos preceitos de convívio estabelecidos como “naturais e corretos”.

Todo afeto para se dar precisa de proximidade física e emocional. Deve ser conquistado com e na convivência. E o amor materno não foge a essa regra. Não é proveniente, como muitos creem, de algum instinto.

Desconstruir essa visão é importante de inúmeras formas e para inúmeras pessoas: para as mães que se sentem cobradas a atingir uma perfeição inalcançável, para as mulheres que não querem ser mães, para os filhos de mães que decidiram partir, para os filhos de mães narcisistas, entre outros.

A maternidade hoje é uma questão importante na vida da mulher moderna, escolhendo ela ser mãe ou não e precisamos entender que isso pode ser traumático, tanto para a mulher, como para todos que convivem com ela. Um trauma curável, parte inerente da história de cada um, mas para elabora-lo precisamos necessariamente deixar de lado todo o mito de amor que a envolve.

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Gabriela Richena Ferreira
Piracicabana, tem 26 anos, é formada em psicologia e é uma grande apreciadora das sutilezas da vida.

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