Já não é de hoje que sabemos que, desde nossos primórdios, há 200 mil anos atrás que estar conectado a algum grupo sempre foi motivo de vantagens expressivas de sobrevivência.

Eu explico.

Em tempos incertos, estar acompanhado de mais pessoas, por exemplo, sempre nos assegurou uma longevidade maior pois, junto ao bando, conseguíamos ter mais chance de nos proteger dos predadores externos – fato bastante comum na época -, mais possibilidades de obter provisões e comida e, finalmente, mais e melhores possibilidades de acasalamento.

Assim, do ponto de vista evolutivo, essas estratégias funcionaram muito bem e passaram, até então, a fazer parte de nossa tendência atual de comportamento. Inclusive, não sei se é de seu conhecimento, mas nosso cérebro nos dotou, inclusive, de um sistema que nos faz buscar sempre pessoas que nos ofereçam segurança e proteção – a conhecida teoria do apego -, que nos ajuda a manter essa “cola social”. (1-2)

Na contramão dessa ideia, sempre soubemos, meio que, instintivamente, que a solidão e o isolamento sempre foram ruins e, portanto, altamente desencorajados. Ser “tímido” e refratário socialmente, sempre foi uma marca negativa de “nossas fraquezas” e, assim, um traço a ser combatido.

É como se o imaginário coletivo tivesse nos ensinado que, as pessoas mais isoladas e avessas, estivessem mergulhadas em suas inseguranças e atormentadas em seus medos e que, fossem mais infelizes e pouco produtivas, se comparadas as pessoas mais extrovertidas, correto?…

Em parte, sim, todavia, novas pesquisas dão uma reviravolta nos conceitos mais antigos e apresentam um outro lado da solidão: a possibilidade de manifestarmos mais habilidades criativas.

Eu explico.

Através de uma amostra de 295 jovens adultos, descobriu-se que o isolamento, na verdade, foi altamente benéfico e cumpriu, de fato, um papel de fermento psicológico para o desenvolvimento de novas ideias e conceitos. (2)

Assim sendo, a timidez e o retraimento social podem, segundo a investigação, acionar mais habilmente as engrenagens da imaginação, se comparados aos que exibem uma maior tendência ao contato social.

Portanto, podemos falar que a esquiva e a separação social podem, na verdade, serem altamente benéficas – um estilo de personalidade, talvez -, e não um defeito a ser alterado.

Obviamente que, tudo tem os dois lados – benefícios e desvantagens -, entretanto, devo confessar, que na tendência ao isolamento, sinto que se abrem espaços para realização de nossos desejos e ideias.

Indo ainda mais além, se você me permite, é possível, inclusive, que as pessoas mais isoladas, sejam aquelas que apresentem, não uma fraqueza da alma, mas, ao contrário, um traço de maior robustez e autonomia emocional, uma vez que dependem menos do entorno social para manter seu próprio bem-estar.

Eu sou um desses.

O outro lado da solidão, na verdade, pode se revelar como uma vantagem expressiva sobre os demais.

Pense nisso.

Referências

(1) http://www.pearsonclinical.com.br/teoria-do-apego.html

(2) https://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2014/07/02/quando-o-apego-e-o-afeto-nao-caminham-junto/

(3) http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0191886917304920?via%3Dihub

Imagem: Valeria Ushakova

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Cristiano Nabuco
psicólogo e atua em consultório particular há 32 anos. Tem Pós-Doutorado pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atualmente trabalha junto ao PRO-AMITI do Instituto de Psiquiatria do HC/FMUSP; Coordena o Núcleo de Terapias Virtuais (SP) e o Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo. Foi Presidente da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas (FBTC). Publicou 13 livros sobre Psicologia, Psiquiatria e Saúde Mental. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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