Sempre gostei de musicais. Quando pequena, aos 5 anos, fiquei fascinada pelo meu primeiro filme todo cantado, A Noviça Rebelde (The Sound of Music,1965), um clássico americano estrelado por aquela que viria anos depois a ser a mágica Mary Poppins, a bela e carismática Julie Andrews. Como esquecer o doce timbre soprano da espivetada aspirante a noviça, Maria?

A cena que mais me encanta é quando ela, com seu jeitinho desastrado e sua natural sinceridade, mesmo vitimada em seu primeiro jantar na mansão, tem uma reação cordial e extremamente passiva e madura ao defender as crianças durante uma infeliz pegadinha, levando hilariamente às lágrimas, os filhos do altivo e autoritário Capitão Von Trapp (Christopher Plummer), um homem amargurado pela perda da esposa e que houvera se acostumado a ser tratado a pão de ló pelos que o rodeavam, sem que nunca fosse questionado sobre sua formal e rígida maneira de tratar seus filhos.

Mais tarde, numa encantadora cena no jardim, tendo como cenário uma noite chuvosa, ambos se rendem ao amor compartilhado na belíssima canção “ Something Good” realizando um dos duetos que eu considero um dos mais lindos até hoje. Na cena, o Capitão ,já desfeito de sua couraça, confessa à imaculada Maria, que se apaixonara por ela justamente neste patético dia. Um clássico que vejo e revejo sempre com o mesmo fascínio, tendo agora o plus, que é a gostosa companhia da minha filha.

Musicais me fascinam pois eles trazem a magia e o encanto da Old Hollywood. Sempre achei que houvera nascido à época errada, pois eu sou fissurada nas décadas de 40 e 50. Nas vestes e na forma como as pessoas se tratavam, com mais educação, elegância e cortesia.

Desta nova safra de filmes, me encantei por dois : O Rei do Show ( The Greatest Showman) estrelado pelo galã Hugh Jackman, vulgo, Wolwerine, na pele do precursor do Circo, Peter. T Barnum,o homem cujo sonho, outrora desdenhado, o fez se tornar imortal mundialmente, introduzindo o circo, com sua tradicional e charmosa lona, como o maior show da Terra. O filme conta ainda o sofrido tempo esperado por ele para conseguir finalmente desposar sua amada Charity (Michelle Williams).

Destaque para a música entoada por ambos, no terraço, em meio à dança dos panos no varal estendidos, “ A million Dreams”,numa celebração apaixonada deste sentimento guardado por anos, agora, finalmente, compartilhado. Me emocionei diversas vezes também com o jovem casal Anne Wheeler (Zendaya), trapezista do circo de Barnum, e o playboy Phillip Carlyle (Zac Efron),que enfrentam as agruras do preconceito interracial e a insegurança do acomodado rapaz que se divide em assumir o romance e manter uma vida de aparências. O conflito interno de ambos se desenlaça no picadeiro, aonde se entregam ao amor numa coreografia aérea ao som da inesquecível “ Rewrite the Stars”. Me arranca lágrimas e doces lembranças de um futuro por mim idealizado…Perdi as contas de quantas vezes cantei estas duas músicas. Em ambos os filmes, o amor vence os dramas, traumas, obstáculos. O Amor que é inabalável. O amor que tudo crê e tudo suporta.

Mas nem só de love songs vive o ser humano. E é aí que a vida é duramente retratada, nos apresentando a Mia (Emma Stone) e a Sebastian ( Ryan Gosling),em La la land ,Cantando Estações, de Damien Chazelle. Segue a história de um pianista de jazz e uma aspirante a atriz que se conhecem e se apaixonam em Los Angeles. O título, é uma referência à cidade na qual o filme é ambientado e ao termo Lalaland, significa: estar “fora da realidade”.

Mia,é uma garçonete que trabalha ao lado de um estúdio de filmagem e sonha em ser uma grande atriz,mas ,é recusada sempre nos testes e Sebastian,por sua vez,é um pianista que toca em restaurantes músicas que não o agradam, mas, como vive duro,faz o seu melhor e,assim,vivendo de bicos,tenta sobreviver. Ambos estão frustrados. Eles não vão com a cara um do outro inicialmente.

Ocorrem alguns estranhamentos. Mia presencia a demissão de Sebastian, tenta ser solidária e ele a ignora.Mais tarde,numa festa, ela revida e assim, sem planejar, a antipatia inicial dá a vez a uma sintonia. Eles vão se conhecendo,marcam um cinema e logo, estão enamorados e mor ando juntos, A paixão,é intensa. “ City of Stars”, é a canção plano de fundo para o amor dos dois. Mas a condição financeira grita mais alto e Sebastian, para melhorar de vida e se tornar digno de Emma,aceita o convite e um antigo amigo músico e ingressa numa banda, que logo se torna um fenômeno. Emma,por sua vez, está envolta na escrita de sua peça,mas os desencontros do casal vão se tornando mais frequentes, devido a incompatibilidade de agendas.

Sebastian, está sempre ocupado, focado na banda e Emma,fica cada vez mais em segundo plano. Mal se veem e o relacionamento, antes, forte,devido à falta de contato,naturalmente esfria.Temos o princípio do fim quando Sebastian perde a apresentação de Emma no teatro e ela, magoada, termina o relacionamento. Eles passam um tempo afastados e Sebastian recebe um telefonema importante de uma audição para Emma. Ainda claramente apaixonado, ele vai atrás dela numa daquelas cenas típicas de cinema. Deduz onde ela mora,buzina,e,olha só; a acha! Quais as chances,não é mesmo? Impossível? Mas o pior é que acontece. Sou testemunha viva destas trapaças surpreendentes que a vida nos dá.

Emma, com baixa autoestima, vai contrariada à audição, mas, ao encenar uma história verídica familiar, representada pela canção “ The fools who dream”, ganha o papel.

Enquanto comtemplam a vista que outrora fora o cenário para o início do romance, os dois decidem optar por seguirem seus destinos, separadamente, embora, ainda que cientes da finitude de sua história, se declarem conscientes de que sempre amarão um ao outro. Há uma passagem de tempo e agora somos apresentados a uma jovem e bela atriz. Emma realizara seu sonho e fora a Paris. Hoje, já casada e com uma filha pequena, está de volta a L.A. e tem uma “night out”.

Nesta saída, entra justamente no Clube de Jazz tão sonhado por ele e compartilhado com ela, o Seb´s. E, no cruzar de olhares trocado, é imediata a sensação. Sim, o Amor ainda está lá. A chama que não se apaga com o soprar do furacão que é o tempo. Sebastian toca, visivelmente amargurado pela presença de Mia e ela compartilha a mesma sensação de desconforto,a de borboletas no estômago. Porém, ela se mescla com o sentimento de perda e saudade. E são estes dois sentimentos que eles trocam,no último olhar que se presenteiam, na cena final. O sorriso forçado, arrancado das entranhas num esforço para provarem a si mesmos que se superaram e que ficarão bem,mas sabem que isto é teatro,puro engano. A alma,não mente.

A razão pela qual La La Land ganhou 6 prêmios,teve 14 indicações ao Oscar e fora aclamado pelo mundo todo numa das maiores bilheterias dos últimos anos, transformando o filme num fenômeno mundial que entra para o Hall dos Clássicos Imortais do Cinema ,se dá pelo simples fato de que,a vida,imita a arte. Amor,vende. E como vende! .Mas amores impossíveis vendem ainda mais. Porque é a realidade, nua e crua. Todos os dias, romances são desfeitos, corações são partidos para sempre.

Chazelle ainda nos dá uma preciosa lição na deslumbrante sequência em que somos presenteados com um vislumbre de como seria a vida dos dois, caso optassem por construírem seus sonhos, juntos, um de cada vez ,sem pressa, sem egoísmo, só com companheirismo,determinação e paciência. Sebastian daria prioridade à carreira de Emma, pois seu trabalho seria em Paris. Lá,ela cresceria na profissão e ele então tocaria o seu Clube de Jazz. Constituiriam uma família e, por tabela, uma relação pessoal e profissional sólida e próspera. O combo perfeito.Teriam, então, seu final feliz. O filme mostra que, o que faz os relacionamentos fracassarem, são as escolhas equivocadas. O individualismo que sobrepuja o companheirismo e culmina na ruína da relação. Os amores solúveis. Amores que enlaçam, mas não engatam. Amores de verão. Amores, que não passam de uma única estação.

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Daniele Abrantes
Sou jornalista de espírito vintage, que ama compor músicas ,pintar, e escrever sobre assuntos voltados à compreensão das relações humanas e da profundidade da alma. Acredito que as duas maiores forças que possuem o poder de mudar o nosso dia a dia são o Amor e a Empatia. Grata por compartilhar com vocês esta jornada.

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