Umas palavras prévias

Antes de mais nada, preciso dizer que este texto não é de autoria única. Claro, ele diz respeito a experiências pessoais também, mas foi costurado com linhas e retalhos de histórias outras – histórias essas que não só confirmaram sentimentos e percepções, mas que acabaram criando uma rede de apoio, descobertas e amadurecimento em vários níveis.

Então, embora as palavras aqui tenham sido enfileiradas por mim, elas foram compartilhadas e debatidas com amigos, família, em sessões de terapia e, acima de tudo, em trocas de muita confiança e empatia. Foi assim que o texto ganhou corpo e legitimidade, porque antes tudo o que tínhamos eram pensamentos um tanto confusos e sensações latentes sem nome muito bem definido (e uma grande insegurança em nomeá-las também…).

Foi um texto difícil, de confecção lenta, com muitos percalços pelo caminho. Foi um texto de idas e vindas, de engavetamentos e retomadas, de ajustes, releituras, inclusões, exclusões. Na verdade, penso que ele nunca estaria pronto – porque sempre tinha alguém apontando mais um detalhe, complementando alguma ideia… texto de muitas mãos; texto de muitos corações – alguns ainda partidos, outros vivendo a maravilha da reconstrução, outros plenos e felizes imersos em novas histórias.

Vale incluir, finalmente, que não são só as mulheres que enfrentam esse tipo de situação. Parece que majoritariamente as mulheres, sim. Mas nessas andanças no encalço do tema, pude conhecer a experiência de homens que também passaram por relacionamentos abusivos do mesmo padrão. Assim, a voz deles também permeia essas linhas, embora a redação esteja acampada no território do feminino.

A ideia é, primordialmente, ajudar pessoas que eventualmente estejam nesse tipo de relação a reconhecer e nomear esses lugares, para que consigam se livrar dos elos destrutivos que as prende. Porque essa libertação é, de fato, engrandecedora e linda.

Isto dito, vamos ao que interessa.

“Relacionamento abusivo”. Quando ouvimos este termo é quase imediato associarmos a ideia à violência, física ou verbal, contra um dos pares (aqui daremos voz à mulher) num relacionamento afetivo. Via de regra todo mundo conhece casos assim. Os noticiários e as páginas da internet estão cheios de dados apavorantes sobre o assunto.

Raramente refletimos, porém, sobre a agressão que acontece de forma silenciosa, sem alardes; e o mais assustador: que vem mascarada de razoabilidade. É tão difícil ratificar a existência desse tipo de agressão – já que ela está protegida por efetivos mecanismos de controle – que o mais comum é que a mulher passe muito tempo nesse padrão de relacionamento sem conseguir nomear os próprios sentimentos, sem conseguir entender com clareza o que se passa, ainda que haja um constante desconforto por todos os cantos.

Nesse tipo de relação a mulher é deslegitimada de forma constante; com relação às suas ideias, às suas vontades, aos seus sentimentos. No entanto esse movimento acontece de forma velada, com ares de naturalidade, camuflado das melhores e mais justas intenções. É um território tão sensível e intrincado que ela questiona a validade do que sente; é levada, pela eficaz manipulação do parceiro, a considerar suas próprias emoções exageradas, mesquinhas ou egoístas.

E por falar em egoísmo, o perfil do parceiro é sempre este. Alguém altamente centrado em si, nos seus desejos, no seu tempo, no seu mundo. O olhar “genuíno” para a companheira só acontece superficialmente (e normalmente só quando ele precisa, quando há algo a ganhar ou muito a perder caso não o faça). Não há entrega. Não há real compartilhamento da vida. Há, isso sim, uma distância – física e emocional – cuidadosamente garantida e justificada por trabalho, cansaço, indisposição, ou quaisquer outros compromissos ou impossibilidades.

O fato é que a não inclusão gera na mulher o sentimento de estar sendo propositalmente “escondida” do círculo social de seu par. Essa névoa de mistério e insegurança é um pano de fundo constante e se intensifica diante das enfáticas negativas do companheiro, que por sua fala assertiva e tão plena de certezas a leva a duvidar de sua sanidade emocional (e até mesmo mental).

Em outros casos, a parceira é incluída no mundo do outro; é apresentada a todos os amigos, é chamada aos encontros, é levada ao convívio da família com regularidade. Existe, no entanto, uma espécie de marcação de território acirrada nesses contatos. Ele precisa sinalizar a posse; ele desconfia de cada movimento dela; existem conflitos constantes por ciúmes e desconfianças completamente desancorados da realidade. A mulher muitas vezes começa a sentir medo de olhar para o lado e se vê impelida a muitos pedidos de desculpas (por algo que não fez, obviamente) para garantir o mínimo de paz durante um tempo. É assim que ela começa a se anular e a se perder numa rede ilusória de culpas e dúvidas sobre seu próprio comportamento.

Em quaisquer dos casos, porém, esse cara dificilmente demonstrará abertura – de tempo e de disposição – para estar ao lado dela em seus momentos sociais e familiares. Conhecer amigos e família, desenvolver laços com essas pessoas, é algo que causa extrema resistência ao perfil do manipulador emocional.

Ela pode tentar uma conversa de coração aberto e dizer que falta conexão, que falta tempo compartilhado, que falta troca saudável. Ele vai fazer cara de espanto, vai dizer coisas que poderiam ser sintetizadas num ‘você está louca’ (mas claro, ele vai dizer de forma bonita e “aceitável”), vai dizer o quanto se sente próximo e íntimo dela.

E se o assunto avança um passo além disso, a reação provável é ele dizer que se sente cobrado e injustamente pressionado – sim, a “culpa” vai pra conta dela de novo, que acaba questionando se realmente é insegura, ciumenta e cobradora como ele deixa entender (mesmo quando essas características nunca apareceram em outros relacionamentos). E o mais triste é que todo esse assédio moral acontece com ares de maturidade e sabedoria por parte do outro. Porque esta é uma das principais características desse tipo de comportamento: ele infantiliza a mulher.

Esse “infantilizar” passa por um discurso aparentemente empático e com aquele já conhecido ar de superioridade. Algo que poderia soar como “olha aqui pequena criança, a verdade é que apesar do que acha que sente, você está muito nervosa agora e não sabe o que diz. Ainda bem que eu sou essa pessoa altamente compreensiva e sábia, e por isso vou colocar suas reações na caixinha do não-vou-levar-a-sério-porque-ela-está-emocionalmente-abalada”. Pronto. É tudo o que a mulher precisa para, literalmente, perder sua voz.

Ela não é ouvida, nunca será. Seus sentimentos nunca conseguirão de fato passar pela armadura e ganhar espaço; dar ouvidos às emoções da parceira, validá-las, trazê-las para um lugar de integração e discussão madura custaria muito a esse perfil. Primeiro porque ele sequer saberia lidar honestamente com questões que não sejam as suas; segundo porque ele não tem interesse algum em fazê-lo.

A grande e difícil verdade é que a vida dela não importa tanto assim – e, perto da grandiosidade dos feitos dele [sic], as conquistas e desafios da vida dela vão parecendo ainda mais insignificantes, ainda mais infantis. Com o tempo, ela perde a vontade de falar de si, de compartilhar qualquer coisa do seu dia, dos seus sonhos, dos seus interesses; ela percebe, afinal, que não há uma real interlocução naquele canal. E, mesmo que inconscientemente, se sente diminuída em potencialidades que sabe que tem.

O que acontece é que esse homem precisa estar sempre em destaque em tudo o que faz. Não é difícil detectar que condutas como esta quase sempre estão atreladas a uma gritante imaturidade emocional misturada com insegurança. Entretanto, as máscaras usadas para esconder tais características são tão bem posicionadas que, podemos inferir, esse cavaleiro está preso à própria armadura sem se dar conta. Triste para todos os envolvidos.

Apesar de ser um jogo cheio de altos e baixos, mais cedo ou mais tarde o cansaço chega. O pique vai se esgotando. A expectativa é que mulher perceba, afinal, que não há ganhos nessa relação, não há motivos verdadeiros para continuar ali. E só então começa o movimento de despertar, de identificar padrões, de perceber a teia complexa de comportamentos destrutivos que se configurou naquele espaço. E assim se inicia o tão necessário aceno do afastamento.

Mas quem disse que é fácil se afastar?

Quando esse indivíduo percebe a ausência da parceira, ele recorre às máscaras de sedução. Quando ela verbaliza sua insatisfação, ele vai demonstrar empatia e prometer mudanças – que de fato podem acontecer por um curto espaço de tempo, faz parte do mecanismo. Ele vai insistir, vai investir até em bons momentos de par romântico para respaldar suas tentativas de convencimento. E se ela resolve dar outra chance (e usualmente são muitas as “últimas chances”), o fato é que tudo volta ao velho padrão daquele conhecido relacionamento, como se nenhuma turbulência tivesse acontecido. A mulher volta a questionar sua própria capacidade cognitiva – será que entendeu o processo direito?, será que perdeu algum link importante entre os fatos?, ou será que é louca mesmo e interpreta o mundo de forma totalmente equivocada?

A tendência então é que as tentativas de afastamento se intensifiquem porque o desgaste passa a ser, por fim, percebido de modo mais consciente.

Ele, por sua vez, vai continuar investindo naquela pseudonormalidade.

Com persistência e grossas camadas de cansaço emocional, em algum momento a história se resolve de forma definitiva. Mas isso nunca é fácil. Porque normalmente histórias com padrões destrutivos só se encerram com ações que vibram na mesma energia.

Raramente o fim acontecerá com respeito e consideração pelos sentimentos da parceira, simplesmente porque ele não é capaz de reconhecer com clareza os investimentos dela na relação. Por isso o rompimento definitivo tende a vir permeado de ainda mais egoísmo, de atitudes machistas, de chantagem emocional, de desrespeito.

E é assim, de forma lamentável, que finalmente a mulher se dá conta da pessoa que de fato existe – e sempre existiu – por detrás da máscara. Triste, decepcionante, quase asqueroso. Mas eis o caminho por onde finalmente começa um processo lindo de libertação e de alívio.

Durante o processo de desconexão, que como tantos outros passa por momentos de altos e baixos, não é incomum que a mulher perceba que o relacionamento estava baseado na disputa de egos e que pouco dizia sobre amor propriamente.

Vale pontuar ainda que grande parte desses psicopatas emocionais não se percebe assim. Estão obstinados demais pelo poder, estão cegos demais para quaisquer coisas ou pessoas que “atravessem” seus campos egóicos. Existe tanta ambição e tanto machismo percorrendo aquelas veias (ainda que neguem com veemência), que seu comportamento simplesmente se reproduz de forma automática – e, claro, é superficialmente justificado por discursos bonitos e por narrativas coerentes que eles constroem para terem onde se agarrar.

Explica, mas não justifica.

Enquanto não se decidirem pelo difícil e necessário caminho da maturidade emocional, essas pessoas continuarão dando nome de “relacionamento” a jogos nocivos de poder. Continuarão procurando quem se dedique às suas questões umbilicais ao invés de construírem, eles próprios, histórias compartilhadas de coragem, crescimento e entrega.

Uma última coisa a se dizer é o quanto é incrível perceber como muitas mulheres, mesmo pouco tempo depois do rompimento, não sentem quaisquer indícios de vazio ou solidão. Quando se sabem sozinhas, sabem-se também donas de seu tempo, de suas vontades, e se despem da expectativa de caber no tempo e na vida do outro.

Libertação é a palavra.

A autoestima e a energia, antes tão comprometidas, começam a ganhar novos ares. Pelas janelas da vida voltam a soprar os ventos da leveza, há uma atenuação quase que literal de pesos excessivos.

A qualidade de vida aumenta, porque a mente se tranquiliza. O coração vai se curando e voltando pros eixos. Oportunidades novas começam a surgir e, com elas, uma reconexão à essência, uma alegria genuína de se lembrar quem se é.

É transformador deixar as profundezas do reino de Hades depois de um longo e tenebroso inferno. E é inegável que existe um grande e valioso ganho nisso tudo. O maior deles é saber que, uma vez Perséfone, nunca mais Coré.

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Giselle Castro
Graduada em Letras, com MBA na área de Engenharia da Qualidade, não trabalha nem numa área, nem na outra - o que mostra que nem tudo é linear nessa vida. Não é terapeuta, nem psicóloga; está começando a tatear seus caminhos profissionais na astrologia (porque é por ali, no meio das estrelas, que o coração dela estacionou há tempos...). Tirando a parte dos rótulos, ela é apenas uma dessas pessoas que tentam viver com ética, bom humor, leveza e autenticidade - e que nem sempre conseguem, mas continuam tentando. Escrever foi a forma que ela encontrou, desde muito criança, para organizar a bagunça da mente e do coração. Por sorte, tem funcionado desde então. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

3 COMENTÁRIOS

    • Oi Maria!
      Uau, 30 anos! Você foi uma guerreira! Tanto por ter se mantido nesse padrão por tanto tempo, como por ter conseguido sair dele.
      Dê seu tempo para se recuperar, se tratar, se reencontrar. Procure ajuda, é extremamente importante nesse momento! E quando menos você esperar, uma fase nova vai surgir – e você vai se encher de energia e de gratidão à vida! Força pra você <3

  1. Obrigada Gisele
    Descreve a minha relação 99% na integra.
    Conclusão, depressão, falta auto estima, não valorizada, afastada de todos e sem coragem para continuar.

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