Quando senti o cheiro do feijão refogado no alho e a coleção dos clássicos do cinema todos organizados na sala de tv, me dei conta que estava na casa dos meus pais. Nada mudou, apenas eu.

Aquele cheirinho de almoço no ar, as músicas do meu pai, minha mãe reclamando porque tinha errado a mão do arroz doce, então tive a certeza que estava “realmente” em casa. Troco qualquer passeio para visitar os meus pais, porque amor e simplicidade são lições para uma vida feliz.

O tempo passou, mas não levou de mim, a sensação de alegria que é voltar para casa dos pais. Quando eu chego lá, é o meu momento, tudo está preparado para me esperar. Minha mãe preocupada com a comida, os doces e a cama. Ela arruma cada detalhe e, o que simples, se torna um luxo . Meu pai sai para comprar o que falta para cozinhar e pega o pão no fim da tarde, rituais que perpetuam desde quando eu era menina.

Depois que saímos da casa dos nossos pais, tudo modifica, lá passa a ser nosso refúgio, o lugar sagrado para as férias, o refúgio para os nossos problemas e acampamento para nossos filhos.

Lá, é o melhor lugar para estar mesmo que seja dois dias ou duas semanas para nos livrar do estresse, das decepções e da rotina. Lá, é o lugar para celebrar novas conquistas, reunir para os aniversários e feriados em família. A casa dos pais é o canto que segura nossas barras, acolhe nossos problemas e alegrias.

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Tudo que precisamos para nos completar está na família, está na volta ao lar. Até o filho pródigo sentiu solidão, passou necessidade e retornou, porque a casa dos pais era o lugar que ele pertencia.

Pertencemos a casa dos nossos pais, mesmo que moramos distantes, mesmo que tudo foi modificado pelo tempo, porque amor de verdade, mesmo que sofra mudanças, a essência é a mesma e para sempre. A casa dos pais é o melhor aconchego quando a vida não está nada bem e quando nós esquecemos que o amor é a receita para se viver bem.

Podemos ficar sem falar com os amigos, com os colegas de trabalho, com os vizinhos, mas ficar sem falar com a mãe e o pai, é saudade demais, é desconforto para os sentimentos, é autocobrança que incomoda. Não consigo ficar sem a voz da minha mãe e sem a bravura doce das palavras do meu pai. Não consigo me desligar da minha irmã, mesmo que não nos falamos com frequência, rezo para ela todos os dias.

Na casa dos meus pais tem rituais sagrados e profanos. Minha mãe reza com o padre na tv todos os dias, meu pai escuta música no Youtube ou assiste ao canal de esportes. O almoço está na mesa às 12:00. Tem café coado duas, três vezes por dia. O pão de queijo é obra prima. O arroz doce relíquia da minha mãe, não pode faltar.

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Tem bolos e pães. Tem conversas estranhas e engraçadas. Tem reclamações e sorrisos. Tem visitas todos os dias. Tem que limpar a casa todos os dias, lavar os banheiros e trocar roupas de cama e toalhas uma vez por semana. Tem calor humano, tem diversão garantida e cochilo todos os dias depois do almoço.

A casa é a mesma. Os cheiros intactos impregnam nossas lembranças. A vida de lá não mudou nada. Meus pais estão juntos há mais de quarenta anos. Eles mantem as mesmas tradições e costumes. Tem amor doando e sobrando o tempo todo. Tem meus pais mais velhos, mas que não mudam nunca. Lá, tem receita para se viver uma vida longa em família e amor de plantão vinte e quatro horas por dia.

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Simone Guerra

Professora e colunista do site Fãs da Psicanálise.



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