Ele ou ela quer “um tempo” – Isso vale a pena? A maioria de homens e mulheres concordam em dizer que não; não vale a pena dar “um tempo” para pensar no relacionamento.

Quando esse tipo de questionamento acontece pode ser porque a vontade de se separar, ou de explorar novas oportunidades e pessoas, é mais forte. Para falar sobre o assunto conversamos agora com a sexóloga Sônia Eustáquia Fonseca.

1 – Pedir um tempo é a forma de fazer o outro perceber que se está em dúvida quanto ao próprio sentimento? ou que, talvez, já não sabe se vale à pena ficar junto e prefere não correr o risco de terminar e pede o “tal tempo”?

Uma pessoa que pede tempo no relacionamento, com certeza tem muitas dúvidas sobre algum ponto específico e importante da relação ou dúvidas diversas. Geralmente, só quem pede o tempo é que sabe quanto tempo levará para ter a decisão final e enquanto isso o outro fica com muitas dúvidas e sofrendo. Se o casal é maduro, certamente pensará sobre os pontos levantados no diálogo que antecede o pedido de tempo. Geralmente ele ajuda na reflexão. É como se necessitasse tomar uma distância para ver com mais precisão os pontos conflituosos da relação.

2 – Pedir um tempo é sempre um sinal de que algo não vai bem à relação? Ou pode ter outros motivos?

É isso mesmo, às vezes pode ser um sinal de que algo não vai bem à relação ou com a pessoa (medo de se envolver, de assumir um compromisso…). O mau uso de ‘pedir um tempo’ é quando um dos dois quer terminar, porém não tem coragem de falar ou de enfrentar o companheiro ou companheira. É uma desculpa do tipo “o gato subiu no telhado…”. Além de não ser sincera, pode magoar muito mais o outro, aquele que fica esperando esse tempo.

3 – você acredita que pedir um tempo funciona a favor da relação?

No fundo, eu acredito no tempo. Acho que ele pode resolver muitos problemas. O tempo não é prenúncio delicado de um aviso de “adeus” ou que a paixão acabou. É apenas uma forma de reavaliar a situação. O relacionamento pode voltar melhor ou acabar de uma vez. Sabemos que quando se ama de verdade, o casal discute o que deve ser feito e tentam juntos descobrir a melhor forma de resolver o que incomoda. Mas se a conversa não flui, o tempo é necessário.

4 – Em um relacionamento, pedir um tempo pode significar que a pessoa está com medo de terminar e no final, se arrepender; e “dar um tempo” é a única alternativa que ele(a) encontra de poder se afastar sem precisar terminar o relacionamento?

O tal tempo, para pensar, pode ser visto como uma desculpa para poder conhecer outras pessoas sem a cobrança da fidelidade. Esse tempo pode representar também o adiamento de uma decisão mais complicada como o término definitivo do namoro ou casamento. Pode acontecer por medo de tomar uma decisão precipitada. Teoricamente, trata-se de um acordo verbal que coloca um namoro em banho-maria ou colocar o companheiro(a) debaixo do balaio.

5 – Qual seria a melhor maneira de resolver a questão quando ela surge?

A transparência é a base para todos os relacionamento normais. Se relacionar com alguém é um ato de amor, de entrega de conhecimento próprio e do outro, e além de tudo, precisa existir uma vontade mútua de estar junto. Se por algum motivo isso não acontece mais, a melhor ação é sentar e conversar abertamente sobre o assunto. E a partir da conversa ver o rumo que vai dar ao relacionamento.

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6 – Muitas pessoas sentem medo em pôr fim numa relação, assim como em assumir compromissos duradouros, ficam “enrolando”. As causas podem não ser do relacionamento e sim, questões psicológicas subjetivas? Quais seriam?

Fazer escolhas é muito difícil em quaisquer circunstâncias. Quase sempre envolve perder uma coisa para ganhar outra; e as vezes a pessoa não tem certeza se dá conta de perder para ganhar. Assumir riscos faz parte da vida e de qualquer relacionamento e mesmo assim, é normal as pessoas sentirem medo, principalmente porque não têm e nem podem dar garantia total de que dar o tempo vai dar certo, e nem que esse tempo, realmente é saudável.

A questão pior que o casal tem que enfrentar é o medo subjetivo da entrega realizada num casamento. A pessoa para fazer isso com responsabilidade e maturidade tem que ter tido vivencias infantis muito saudáveis do ponto de vista emocional. Principalmente no relacionamento com os pais. Numa linguagem técnica, teriam que ter vivido bem as fases do desenvolvimento sexual principalmente o édipo.

7 – Quais seriam os prós e contras de se separar do namorado por algum tempo?

Às vezes uma pausa pode fazer muito bem para o relacionamento. Dependendo do tempo de relação ou da maturidade do casal, um pouco de distância pode servir como um momento de balanço, de reflexões e questionamentos; e isso sempre é saudável. Muita coisa pode acontecer durante este período stand-by.

É possível conhecer outras pessoas e fazer comparações com aquela que está no aguardo de uma resposta ou então reviver a vida de solteiro, cheia de festa e farra, sem cobranças, sem explicações. Se for dessa forma que a pessoa que pediu o tempo encontrou para “refletir”, foi uma escolha dela. Cada um sabe da sua própria história entretanto a tendência é um dos dois se machucar.

8 – Quando se dá “um tempo”, muitas vezes não ocorre uma volta ao relacionamento, não é? E quando ocorre, a relação sofre alguma consequência?

Não existe uma pesquisa sobre o tema, mas, o que observamos é que a maioria dos casais não retomam a relação depois do “tempo” e quando voltam a maioria mostra-se muito machucada. Depois, de se afastar e ouvir sua voz interior: eu estou feliz? Sinto falta ou saudade dele (a)? Consigo conviver com seus defeitos? Ouvindo as respostas internas, pode acontecer que volte.

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9 – As dúvidas sobre o outro na relação, e consequentemente o pedido de tempo é comum em todas as gerações e idades? Ocorre também dentro nos casamentos?

É sim acontece em todas as idades: É menos frequente em casamentos já consolidados pelos anos de vida juntos. Vejo casais que já estão juntos há bastante tempo e é frequente que haja certa acomodação. É comum as pessoas deixarem de fazer suas próprias vontades para fazer a vontade do outro, e isso vai deixando a pessoa insatisfeita e as vezes até com muitos ressentimentos. Se o casal tiver maturidade de ‘dar um tempo’ de verdade, refletir e dizer para o outro por que não está feliz, do que sente falta na relação, o que gostaria de fazer, as chances de retomar, com sucesso, a relação ou o casamento são enormes.

10 – Como é esse “tempo” para a mulher? E para o homem? É diferente?

Acho que não há diferença em relação ao gênero, o que acontece é que aquele que pediu o tempo vai para uma zona de conforto e o outro geralmente entra em profundo desconforto.

Eu sempre sugiro que o casal estabeleça regras a serem seguidas pelos dois, tipo: manterão a fidelidade? ambos poderão se sentir livres para conhecerem outras pessoas? Irão a festas que ambos foram convidados? Conversarão por telefone durante esse período? Trocarão mensagens? Mudarão o status nas redes sociais?

Acho que dessa forma fica menos dolorido para aquele que foi “preterido”. A situação fica mais democrática.

11 – É comum casais homossexuais pedirem tempo?

É sim. O que eu observo na clínica é que os homossexuais são muito intensos em suas paixões e sofrem terrivelmente com as separações, mas, ao mesmo tempo tratam de substituir quem não quer mais, e bem rapidamente. Tudo é vivido com muito vigor e no limite, afinal são duas pessoas do mesmo sexo, portanto com as mesmas características não havendo chance pela complementaridade que se dá pela diferença de sexo. É a diferença que eu observo na clínica.

12 – Na verdade, relacionar é uma arte e não é uma coisa simples, pois vamos tecendo um pouco da relação a cada dia. Isso dá trabalho e exige compreensão, amor dentre outras coisas, não é? Controlar a relação o tempo todo não é uma boa, o que fazer então?

Muitas pessoas não se permitem realizar uma série de coisas como estudar, sair com os amigos, viajar, trabalhar no que gostam, e dizem que é porque o outro não deixa; se elas tiverem clareza e honestidade para revelar seus sentimentos, podem se surpreender, e descobrir que, numa relação para valer, cabem outras atividades, amizades, um tempo sozinho para ler, dormir, afinal, para a individualidade.

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Sônia Eustáquia
Colunista da Revista Atrevida cerca de 6 anos, tem formação e trabalho em Psicanálise e Terapia Ericsoniana. Pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior, Psicologia e Psiquiatria da Infância e Adolescência, Neuropsicologia e Teologia. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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