Olá, meu nome é Daniel Velloso e sou esquizofrênico.

Lembro bem do meu primeiro surto dentro de um shopping center perto da minha casa. Sensação que eu não quero que se repita e que não desejo a ninguém. Vozes, uma barulho na minha cabeça, tonteira, vista turva e fui carregado até em casa pelos bombeiros.

Bom, esse é o início da minha história que não vou poder contar tudo num texto, porque hoje tenho trinta e um anos e isso ocorreu quando eu tinha doze anos de idade.

É muita coisa que eu passei, sabe? Mas o que mais me vem em mente agora que eu passei e me sinto orgulhoso disso, foi passar por isso tudo.

“Daniel tem o diabo no corpo” – dizia minha mãe. Com 13 anos ficava assustado porque não sabia muito bem essa história de diabo e Deus.

Larguei a escola, larguei tudo e comecei a viver um mundo paralelo que eu nem lembro direito hoje como eu vivia. Meu quintal era enorme e eu gostava de ir ao quintal e fotografar borboletas. Isso eu lembro bem! Fui ficando em casa, tanto em casa que chegou uma hora que minha vida era resumida em comer, dormir e sofrer.

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Tinha uma coisa que eu adquiri com isso tudo no começo foi escrever, além de fotografar borboletas. Hoje tenho quatro livros escritos e dois publicados, mas nenhum fala de esquizofrenia, porque eu gostava de escrever poesia.

Tudo baseado nas borboletas, no meu quintal, nas coisas que eu lia na internet e nos meus amigos imaginários. Porque amigos “reais” mesmo, eu não tinha e não queria ver ninguém. Fugi do mundo, me exclui e meus pais ficaram desesperados. “O que está havendo com o meu filho?” ·.

Olha, sabem tentar de tudo? Eu ia à igreja e tremia muito de nervoso, passava mal, chorava todos os dias e pedia pra Deus me levar quando ia nesses lugares e era a minha única prece. Poxa, todo mundo estudando, menos eu. Todo mundo curtindo a adolescência menos eu! O que eu fiz meu Deus? Esse Deus que minha mãe tanto falava, porque ele faz isso comigo?

Adquiri muitos transtornos, e fui piorando a cada dia. Pegava a faca e me cortava todo, teve um dia que eu dei um soco na janela e o vidro quebrou. Minha mão toda ensanguentada, ainda guarda as cicatrizes. Eu tenho muitas cicatrizes. Mas isso fez parte de um processo, do meu processo.

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Bom, cheguei ao fundo do poço, e agora? Pegar uma faca e enfiar no meu peito? Não vivo, não como, não durmo… Bem, essa era a hipótese que mais me apetecia.

Todo esse processo durou seis anos. Foi nesse “quase-morte” que uma amiga da minha mãe disse que eu tinha que ir numa psiquiatra. O problema é que eu não saia de casa, aliás, eu nem saia da cama. Meu pai era vivo na época e levou a minha mãe. Doutora Suely de Oliveira era o nome da médica. Tinha dezoito anos e uma adolescência que eu não vivi. A médica me receitou um combo de três medicamentos. Era a minha única saída. E eu tentei.

Passou uma semana, e eu já estava sentindo uma melhora, conseguia tomar banho, e botei o pé na rua depois de seis anos.

Nossa, onde eu estava? Que lugar é esse? Senti-me um extraterrestre. Foi ai que parece que aquele Deus disse: “Daniel, seja bem vindo a essa nova vida!”. Fui à praia sentir a energia, foi o meu primeiro passeio. Hoje sou apaixonado pelo mar e quero viver os meus últimos dias numa casa que fique perto da praia. Os remédios foram fazendo efeito, e parei de ouvir vozes, parei de passar mal na rua, não chorava mais e nem tinha mais motivos! Eu estava vivo!

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Muitas coisas aconteceram dentre os dezoito aos trinta e um anos que me encontro agora, eu pretendo escrever a minha biografia. Mas o mais importante disso tudo é que eu venci. Hoje estudo psicologia e sabem aonde? Naquele lugar, naquele shopping onde eu passei mal pela primeira vez.

Quero me formar e dizer para as pessoas em palestras que é possível e que eu desafio a ciência. Passei uma grande parte da minha vida estudando a minha doença. E hoje tenho um diálogo maravilhoso com a minha psicóloga e psiquiatra. Continuo tomando os mesmos remédios e estou na melhor fase da minha vida. Minha doença está ponderada porque esquizofrenia não tem cura. Hoje eu sei lidar com o tal diabo que a minha mãe falava.

Eu aprendi muita coisa durante esses anos todos, hoje sou mais humano, sei lidar com as pessoas, mas não foi um processo fácil. Porém, quem disse que viver é fácil? Talvez esse seja o grande “barato” da vida.

Viver pra mim está em primeiro lugar, ser alguém que sirva de exemplo de superação e que as pessoas podem ter esperanças. E agora fazendo faculdade, quero curar muita gente.

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Teve uma psiquiatra que disse que eu era um cara revolucionário, mas eu apenas superei um processo e ainda estou superando os processos. Vivemos uma vida de processos que temos que encarar. Por exemplo, o primeiro processo é abrir os olhos e viver…

Já pensou nisso hoje?

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Daniel Velloso
É escritor, o "Avesso da alma" já faz o maior sucesso e em breve lançará o seu segundo livro. Estudante de Psicologia, é colunista exclusivo do site Fãs da Psicanálise.



6 COMENTÁRIOS

  1. Olá!! Tudo bem? Você sabe me dizer como diferenciar transtorno bipolar de esquizofrenia? Tenho um caso na família e não temos um diagnóstico fechado. Obrigada!

  2. Obrigada Daniel, por compartilhar sua história. O marido da minha mãe sofre com esquizofrenia e hj também está medicado mas, sofreu muito desde criança e só pode se tratar depois de adulto. Ninguém entendia nada. Ele conversava sozinho, já teve ataques agressivos, inclusive com a minha mãe e machucou ela. Com toda essa história, ele não teve muitas oportunidades e até mesmo para trabalhar. Hoje, ele ainda tem alguns quadros, parece depressivo que acontece algumas vezes. É normal?

  3. Gostei muito do seu relato Daniel! A mente humana mesmo nos dias de hoje ainda é uma incógnita para a ciência, há muito ainda para se desvendar; e admiro demais pessoas como você que com tamanhas dificuldades que tiveram na vida ainda encontram coraragem para enfrenta-las e continuar vivendo ! Você tem o meu respeito! Boa sorte pra você e sucesso!!!

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