Ultimamente eu tenho me preocupado mais do que o habitual com o que seria, na verdade, a minha parte. Ouvimos, por todos os lados, os colegas, pacientes e amigos revelando sua imensa decepção com os rumos que a humanidade vem tomando.

São queixas sobre a falta de gentileza, a desonestidade, o egocentrismo, a incapacidade de compartilhar, a desconfiança, e mais uma lista sem limites de atitudes lamentáveis e que, mais lamentavelmente ainda, estão cada vez mais frequentes. No final, quase que invariavelmente terminamos com a frase: “Eu já desisti… faço a minha parte e pronto.”

É aí que meus pensamentos ficam emperrados. Mas… que parte é essa? Quem foi que determinou a parte de cada um nesse mundo? Na maioria das vezes, o significado da tal frase se restringe às tarefas que nos são designadas no trabalho, ou a manter um mínimo de educação e civilidade, como se isso nos aproximasse de uma existência mais digna. Olhando bem superficialmente, aproxima mesmo. É melhor honrar seus compromissos e ser uma pessoa agradável e respeitosa do que o contrário. Mas ainda me parece muito pouco.

Enquanto médicos, nossa parte pode ser atender um paciente de forma educada, fazer as perguntas necessárias para o diagnóstico, determinar uma boa estratégia de tratamento e explicar tudo isso a ele. Fazendo isso, estaremos cumprindo de forma bastante aceitável nosso papel profissional, e dificilmente alguém poderá contestar nossa atitude.

Mas eu me refiro à nossa parte que transcende o profissional, e nos remete à nossa condição principal, que é a de sermos humanos. Para sermos bons profissionais, uma boa formação técnica pode ser suficiente. Mas, para sermos a melhor versão de nós mesmos, isso não dá nem para o começo.

Estou falando da sabedoria de usarmos nossas ferramentas – entre elas nossa profissão, seja ela qual for – para nos elevarmos a uma categoria mais digna de seres humanos. Falo da capacidade de permanecer o tempo todo em alerta para identificar o que podemos fazer para melhorar o mundo ao nosso redor, seja curando o câncer de um, seja aliviando a dor de outro, seja sorrindo para alguém na sala de espera. E falo, especificamente, da capacidade de não mergulhar na ilusão de que nossos esforços isolados são inúteis.

Caímos o tempo todo na armadilha de achar que, se todos em volta agem de forma condenável, uma atitude nossa na direção contrária vai nos expor ao ridículo ou ao risco (de perder o emprego, por exemplo). O fato é que ser ridicularizado ou banido por ter agido de acordo com nossos valores é, surpreendentemente, uma bênção. É isso que nos faz compreender que estamos no lugar errado, com as pessoas erradas e, pior, fazendo a coisa errada. O efeito colateral disso tudo é achar que a nossa parte é apenas não cometer erros grosseiros, não praticar crimes e não maltratar a secretária. Passamos a achar que basta não agir igual. De novo: isso é pouco.

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Nossa função no mundo pode ser bem mais significativa se não nos restringirmos ao que – dizem – é a nossa parte. Estamos aqui para ultrapassar barreiras, para melhorar o que já está bom, para inventar o que ainda não foi criado. Estamos aqui para sermos impelidos a evoluir e, principalmente, para impelir os outros também.

É por isso que é tão importante nos cercarmos de gente que seja capaz de extrair o que há de melhor em nós, e manter distância daqueles que nos obrigam a entrar em contato com nossas características mais obscuras. São pessoas assim que nos fazem acreditar que nossa parte é tão restrita, tão ínfima, tão insignificante. E, com o tempo, acabamos nos tornando apenas isso: partes insignificantes do mundo.

Muitas vezes eu não consigo entender muito bem qual é a minha parte em determinada situação, e provavelmente não existe terapia de autoconhecimento que nos permita saber exatamente o que fazer em absolutamente todas as situações. Isso nem mesmo é necessário. O que importa mesmo é não desistir da busca.

É olhar para as pessoas pensando em formas de melhorar a vida delas. É manter-se fiel aos nossos valores mais sagrados, principalmente quando eles estão sendo fortemente questionados. É olhar para fora do próprio umbigo o maior número de vezes que pudermos. Ao mudar nosso entorno, mesmo que minimamente, colocamos a nós mesmos em movimento, em direção ao melhor que podemos ser. Essa, sim, é nossa parte no mundo.

(Autora: Dra. Ana Lúcia Coradazzi)

(Fonte: nofinaldocorredor)

*Texto publicado com autorização da autora.

*Título original: Qual é a sua parte?

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