Minha mãe sempre diz que cada pessoa no mundo possui uma super habilidade. Às vezes uma extremamente inútil, mas ainda super. Não existe alguém sem talento. Existem apenas pessoas que ainda não descobriram suas super habilidades.

A variedade de super habilidades é enorme. Vai desde gênios da matemática, até pessoas que comem cachorros quentes numa velocidade sobre-humana.

Todo mundo é bom em alguma coisa.

Eu diria que a minha super habilidade é a de entortar o meu dedão esquerdo. Juro, vai até o pulso. É incrivelmente inútil. Mas incrivelmente divertida também.

Não existe nenhuma forma de transformar a minha super habilidade em algo rentável – o que é uma pena – mas tenho orgulho em dizer que já animei muita festinha mequetrefe com ela.

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Mas sabe, de todas as super habilidades do mundo, a que eu mais gostaria de dominar é a de sentir saudade.
Eu não sei sentir saudade. Nem um pouco. Confesso.

Deve existir um jeito certo de sentir saudade. Deve existir um jeito menos doloroso. Um jeito menos vergonhoso. Um jeito menos desastroso. Um jeito menos eu. Mas eu ainda não descobri qual.

Eu não sei sentir saudade por que me entrego a ela. A saudade chega e eu nem resisto. Eu nem tento lutar. Eu não quero nem vencer. Eu me jogo no chão e me deixo levar por ela. E você sabe como a saudade é, né? Ela nunca nos leva a lugares onde realmente deveríamos ir.

A saudade só leva aos piores lugares. Aos bares mais solitários, as casas mais deprimentes, as cidades mais tristes, as camas mais erradas, as pessoas mais vazias.

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A saudade não é uma boa guia. Ela apaga a luz da vida e te obriga a andar tateando no escuro dos seus próprios dias.

A saudade é pedra no sapato. É farpa no dedo. É afta na boca. Ela não te deixa esquecer dela nem por um segundo.

A saudade é trem bala. É paquiderme desgovernado. É carro sem freio. Impossível de deter. Impossível de controlar. Impossível de domar.

A saudade é parente chato que chega sem avisar. Ela incomoda, é inconveniente, e parece que não vai embora nunca.

A saudade é bolada na cara. É quina no dedinho. É cigarro na pele. Ela dói. E bastante.

A saudade é o muito justamente quando não há forças nem pra aguentar o nada.

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Eu não sei sentir saudade. Faltei essa aula. Pulei essa página. Não ouvi essa explicação.

Talvez um dia eu aprenda, mas é mais provável que não. Desconfio que saudade não seja treino ou estudo.

Talvez saudade seja dom. Ou você tem ou não tem. E eu definitivamente não tenho.

Eu queria não me importar. Queria não me atingir. Queria não sentir. Mas o que fazer quando você é uma pessoa que sente demais?

Peguei o papel, a caneta e escrevi:

Por onde você estiver, volta.
Mesmo que por um breve momento.
Mas vê se volta.
Senta aqui do meu lado, segura na minha mão e sente comigo essa saudade de você.

(Autora: Marina Barbieri)
(Fonte: deuruim.net)
*Artigo publicado com autorização do site

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