Você e seus irmãos são seres amorfos, ela ouviu de seu pai. Mendiga, pobre de espírito, ele continuou, dentre outros insultos do tipo doente, louca, arrogante… Mas o que a chamou atenção foi a palavra amorfo. Nunca antes havia escutado esta palavra. Correu para o Google querendo abrandar sua curiosidade, mas já sabia, coisa boa não era.

Amorfo: adjectivo
1. que não tem uma forma definida
2. pessoa sem iniciativa, apática, sem caráter
Sinônimo: disforme, horrendo, hórrido, informe, monstruoso.

Ela chorou.

Pensando nesse quadro, o que levaria um pai, empresário, íntegro, a dizer essas coisas para sua filha, estudiosa, trabalhadora, mãe? Mesmo se existisse uma razão muito forte para isso, o que não era o caso, não se justificaria. Neste momento que ela lembrou que cada um tem um lado negro dentro de si. Havia tempos ela sabia disso, pois mantinha uma grande consciência do seu próprio ser. O lado negro vai muito além de meros defeitos, trata-se de um lado obscuro que tentamos esconder, com medo que se alguém descobrir, se afaste de nós.

A nossa personalidade é formada por uma parte positiva, que ilumina a vida e por uma parte negativa que alimenta o nosso lado sombrio. A Sombra é o que acreditamos ser feio em nós, é o lado ruim, que dificulta a nossa existência, nós o negamos para não prejudicar nossa imagem de eu perfeito.

A verdade é que não existe alguém totalmente santo ou totalmente mau. Somos os dois lados. A luz e a escuridão,somos o equilíbrio. Temos que ter consciência disso e conviver com nossa sombra, aceitá-la, entendê-la e lidar com ela, só assim seremos livres.

Uma parte da nossa personalidade é sempre a dominante. Geralmente o lado negativo fica na surdina, podendo ser estimulado ou inibido. Na maioria da vezes conseguimos manter a sombra adormecida, mas de repente certo gatilho a desperta. Seja um trauma, uma decepção muito grande, uma dor forte ou frustração. Por isso, se a tivermos ignorado por completo e a reprimido por toda a vida, na hora que “explodir”, perderemos seu total controle. Se não a conhecemos intimamente e durante a explosão a alimentamos de vez, podemos provocar comportamentos excessivamente ruins que podem inclusive definir o nosso caráter. Isso é profundamente perigoso.

Limpa Mais: Precisamos abraçar nossas sombras

Cada dia da nossa existência é um teste, quando acordamos, deparamos com uma nova história, um novo acontecimento que pode fazer uma pessoa “boa” se tornar “ruim” e vice-versa. Mas na verdade sempre fomos um e outro. Por isso, é importante ressaltar que a pessoa não muda a sua índole, ela apenas reage de acordo com o que a vida lhe dá.

Fazendo nós seres humanos colocarmos para fora o que temos de melhor, ou de pior. Todos nós já desejamos consciente ou inconscientemente mal a alguém, como perder a promoção, levar um pé na bunda, quebrar a cara e por aí vai. É do ser humano ser competitivo, sentir inveja, ciúmes, ter pensamento maldoso uma vez ou outra.

Todos devemos conhecer a nossa sombra e lhe impor limites, filtrando esses pensamentos ruins e lidando com eles da melhor forma, caso contrário, nossa sombra pode assumir e libertar todos os nossos demônios de vez, seja em atitudes ou simples palavras. O segredo está na capacidade que cada um tem de aprisioná-los novamente quando necessário. Se preciso for, buscar ajuda familiar, psicológica, ou até mesmo espiritual. Não se assuste se algum dia desejar mal a alguém, se assuste se não souber lidar com isso. Converse com sua sombra e deixe seu lado positivo te encaminhar para a luz.

Foi assim, que compreendi que um pai que humilha a filha está apenas perdido no meio de seus demônios, alimentando a sua sombra. De tanto levar na cara, desistiu de sua positividade sempre evidente e sua escuridão se manifesta em quem ele menos deseja. Resta saber agora, qual o tamanho da sua vontade em aprisionar seus demônios novamente. Enquanto sua filha tem sua própria sombra para compreender e seus próprios motivos para perdoar… ou não.

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Mia Coutinho

Publicitária por formação, aeromoça por opção e escritora por paixão. Virginiana, perfeccionista, mãe do Henri. Entre fraldas e mamadeiras, entre pousos e decolagens, entre artes e artimanhas, ela escreve. Escreve porque para ela, escrever é como respirar: indispensável à vida! É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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