O resto é o silêncio…

Mudo, calado, sem muitas explicações, porque apenas se faz.

O silêncio é o que sobra quando não suportamos mais brigas e hipocrisias. O silêncio se faz necessário quando gastar tempo e energia com quem não merece, é mais  satisfatório do que palavras que ferem e não resolvem a situação.

Realmente, o silêncio é um bem, um mal necessário, quando não temos mais como resolver ou argumentar.

O silêncio é o resto quando um beijo interrompe as palavras. O silêncio finaliza nossa existência. O silêncio coloca um ponto final nas decepções da vida e nas tristezas que não tem soluções. O silêncio pode terminar em lágrimas escondidas, em pensamentos nunca revelados e em distâncias sem explicações.

Shakespeare finaliza Hamlet dizendo: the rest is the silence!

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Talvez sim, talvez não. Tão relativo quanto “ser ou não ser, eis a questão”. O silêncio não é apenas o fim, mas pode ser também o começo… E pode não ser!

O silêncio pode ser o começo de mais um dia, uma paquera silenciosa de expectativas, um sim libertador, um olhar de assentimento, um abraço sem palavras, um beijo que cala. O silêncio se faz quando não há necessidades de ruídos, de suspiros e de palavras.

Ser ou não ser? Silencioso ou abstrato? Silencioso ou barulhento? O som da vida e o silêncio dos sentimentos se mesclam para enfeitarem as histórias que todos os dias vamos escrevendo.

Há histórias de vidas que se fazem perfeitas com o silêncio e não precisam de som. É só prestar atenção nas flores dos campos, no movimento calado dos lagos, nas belezas naturais das serras e montanhas, na neve que cai pintando tudo de branco, no desabrochar das flores, no bailado das nuvens no céu, nas cores da vida.

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Tudo silencioso, e não é o resto. Silêncio, o começo de todos os dias, quando nos despertamos das nossas noites para mais um amanhecer.

É no silêncio que escondemos dos sons do mundo e dos sentimentos que nos atormentam. É no silêncio que nos refugiamos das indecisões que se instalam, sem vontade de escutar os gritos doídos das decepções, das tristezas e das dores que se fazem dentro de nós.

Nos silêncios encontramos com o nosso eu, despimos quem realmente somos e temos a certeza, muitas vezes, que o culpado de tudo não estar como desejamos, somos nós mesmos. Nós mesmos, que não temos a coragem para assumirmos que o fracasso instalado é nossa culpa.

Estamos cegos, somos covardes e culpamos o outro, o mundo, porque é mais fácil do que assumir nossa falta de vontade, nosso medo, nossa limitação humana. O silêncio pode ser hipocrisia, ser fingimento, ser máscaras contra nós mesmos.

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O silêncio impõe uma barreira entre nós e o mundo externo. O silêncio é o íntimo intransponível que se faz entre nós e nosso jeito de sermos. O silêncio é o fim, é o começo, é o momento único em que assumimos para nós e para o mundo quem somos e o que não somos.

O silêncio não é o fim, mas pode ser a salvação para uma vida mais tranquila e mais digna, quando não queremos nos mostrar despidos para o que não vale à pena ou que não convém.

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Simone Guerra
Professora e colunista do site Fãs da Psicanálise.



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