A sociedade contemporânea demanda de seus sujeitos uma vivência organizada e rígida como se o ser humano fosse um fábrica de alta produção, ou ainda, um robô com componentes muito bem delimitados, sendo possível modificar seu comportamento com o simples apertar de um botão.

Nesse aspecto, é comum a sensação de que a vida se resume no imperativo de atingir a perfeição. Se constituir de modo autônimo, crítico, ancorados pelo desejo, pensamento e sentimento são compreendidos como perda de tempo, e tempo é dinheiro.

A mensagem é clara: é preciso produzir, é preciso ser saudável, feliz, sorridente, simpático, bem sucedido, esteticamente agradável.

Não se pode parar, reduzir o ritmo, ser diferente, ter estações de tristeza, raiva e principalmente não se pode ter momentos de reflexão, se algo der errado e você não se sentir bem, tudo será resolvido com o apertar do botão, ofertado via comprimido(1) , mas comprimir nem sempre é a alternativa mais saudável, às vezes é preciso expandir.

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Talvez nunca lhe tenham dito, mas você pode ficar triste, você pode ter dias em que não quer papo com ninguém, você precisa de vez em quando se deprimir, pensar um pouco no caminho que está trilhando, ter autonomia para decidir se está sendo adequado ou necessita de alguma mudança.

Acima de tudo, você pode ser imperfeito, e diferente do que muitos querem que você acredite, isso é ser humano.

Querer uma perfeição quase robótica é lutar contra a própria humanidade, contra a subjetividade. Realmente talvez um caminho mais fácil, mas provavelmente de doença mental.

A realidade existencial, entretanto, é uma escolha que exige coragem. Parar e refletir na vida, muitas vezes, é perceber e sentir aspectos internos escuros e buracos tampados com areia.

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Acessar a subjetividade é dispor-se à reelaboração da própria história e nem sempre é fácil acender a luz ou recapear a estrada de maneira duradoura.

Com tudo isso, a pós-modernidade ao mesmo tempo em que demanda a compreensão de aspectos tão complexos, vende a ilusão de que tudo pode ser muito fácil e se esquecem, negam e resistem ao essencial e humanamente possível: acessar a própria subjetividade para encontrar possibilidades de mudança, sem atalhos, um verdadeiro caminho para consciência moderna.

(1) É evidente que os modernos medicamentos são extremamente úteis e podem ajudar muito nos casos em que há uma desorganização orgânica. Neste texto, entretanto, destacamos as questões subjetivas, por exemplo, a tristeza provocada pela perda ou medo da perda de algo ou alguém significativo, ou ainda a angústia provocada por nunca conseguir chegar ao ideal de vida, nesse sentido, medicar seria como empurrar a sujeira para debaixo do tapete, sendo o mais indicado compreender a angústia subjetiva, e elaborá-la para seguir em frente.

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João Paulo Zerbinati
Psicólogo Clínico de Orientação Psicanalítica, atendendo em Itápolis-SP. Graduado pela PUC-Campinas. Mestrando pela Faculdade de Ciências e Letras, UNESP-Araraquara. Membro do grupo de pesquisa SexualidadeVida USP\CNPq. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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