Sabe aquele momento em que a vida derrapa? Ou melhor, a gente derrapa na vida? Cai, se esborracha, e parece um processo contínuo? Pois tinha algo ali que nos fez cair: as intempéries que enfrentamos dentro da gente. Aquilo que poucos sabem o que é, mas alguns buscam saber, naquela incessante vontade de compreender e de tentar evoluir para ter uma existência mais apaziguadora para si mesmo. E mais apaziguadora para o turbilhão de coisas que fervilha na nossa mente.

Não tem história de vida com antiderrapante. Não tem trajetória sem derrapagem. Todo mundo escorrega. Leva tombo, se machuca, experimenta a dor óbvia e lancinante da ferida aberta. E, se não houver coragem – aquela força que a gente necessita, diariamente, para enfrentar o medo – a ferida não fecha.

Muitas vezes, ainda fica mais profunda, porque a gente se flagela, se culpa, se lembra do passado, dos fracassos, das quedas, dos amores que morreram, da parte de nós mesmos que deixamos morrer junto com cada perda que tivemos.

Nunca disseram que é fácil viver e nem que a vida é fácil. Não é. Mas podemos apreciar mais a vida e reclamar menos, mesmo diante destas derrapagens inevitáveis. Também não é fácil conviver com feridas e muitas vezes, não é tão rápido curá-las.

Cabe a nós, porém, nos reerguermos, tratar destas feridas sem provocar outras. É buscar conhecer a si mesmo, no contínuo tão breve de viver e de experimentar tantas emoções…

Mesmo que pareça a saída mais rápida, fugir não adianta. Achar que a ferida vai se curar por si só é ser negligente. É acreditar-se corajoso e agigantar uma covardia, que alimenta as máscaras e os personagens que muitos gostam de interpretar no dia a dia.

Aliás, tem gente que se aperfeiçoa em fugir, em viver numa “ilha da fantasia”, sem encarar a realidade de frente, sem enfrentar os medos e os compromissos que fizeram, seja com outras pessoas ou consigo mesmas.

Esquecem-se dos juramentos, das “provas de amor”, têm uma espécie de amnésia seletiva e posam, o tempo todo, como pessoas bem resolvidas, que são extremamente hábeis em dar conselhos para os outros ou prover soluções miraculosas para os problemas alheios, mas completamente incapazes de lidar com as próprias frustrações e, principalmente, de se aceitarem como são. De reconhecerem suas virtudes e suas fraquezas. De acolherem a si mesmos e se libertarem dos grilhões que aprisionam e trazem mais sofrimentos.

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Interpretar personagens inventados parece requerer uma energia demasiadamente grande, talvez muito maior do que enfrentar as insatisfações, os medos, as angústias e tudo o que sai daquele trajeto que cada um traça para seguir vivendo. Inclusive, mudar este trajeto e reformular este caminho é uma necessidade para sofrer menos. E muitas vezes é questão de sobrevivência. É extrair o melhor de cada momento da vida, porque nada é permanente. Nem a dor e tampouco a alegria.

As derrapagens da vida trazem grandes ensinamentos. Mas é preciso buscar esta sabedoria. É preciso encontrar, ainda que seja no chão, sentidos para levantar. A vida não se limita às derrapagens. Elas são apenas uma parte, que podem trazer um poder grande de transformação para a vida de cada um de nós.

Viver, em meio a tantas insatisfações, não é fácil. E ainda que seja difícil viver, é negligente ter uma vida medíocre e morrer sem ter sido um pouco melhor. Derrape, mas se levante. Cure os machucados e retome sua trajetória com mais força. E, sobretudo, com a coragem de enfrentar os medos e enfrentar-se a si mesmo.

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Monica Kikuti
Mônica Kikuti é cronista e colunista do site Fãs da Psicanálise.

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