Das várias perguntas sobre a psicologia, uma irrompe-se destacadamente na direção do avanço e da defesa, à espera de importantes respostas que auxiliem na compreensão dos comportamentos que tanto nos mantêm separados enquanto espécie, feito unidades claramente diferenciadas umas das outras, quanto nos une ao oferecer e estimular a influência mútua.

A sofisticação evolutiva produziu refinadas artimanhas de sobrevivência, aperfeiçoamento e transmissão de tais informações contidas nos genes, capazes de manter o projeto de evolução ao qual nos submetemos silenciosa e ininterruptamente, a despeito de o sabermos ou não, desde o ontem até ao porvir.

A formação psíquica se dá através dos movimentos da percepção estimulada pelo ambiente (influências) e das respostas desencadeadas pela genética, servindo-se programada e eficientemente das estruturas biológicas e da fisiologia, culminando na estruturação da unidade, ou o que se pode denominar de personalidade.

O conjunto resultante do universo contido na ordem do alfabeto genético (fruto da gigantesca árvore da espécie em permanente transformação; um sem número de gerações e suas características a passar o bastão da vida) e da ascendência daquilo que nos toca ao chegar do mundo exterior. Com efeito, dentro e fora há colaborações na formação psicológica da qual nos servimos permanentemente.

Note-se, contudo, que tal progresso é marcado pela conquista gradativa da autonomia, pois o sistema que impulsiona a evolução baseia-se na unidade capaz de ultrapassar-se por forças íntimas e pessoais, utilizando-se das influências das outras unidades.

São trocas essenciais que, no entanto, se limitam à porosidade (permeabilidade aos estímulos recebidos) conveniente do que é aceito ou rejeitado, sobretudo com o amadurecimento advindo da experiência, posterior ao período de dependência que caracteriza a infância.

Então surge uma questão: Não reside aqui uma diferença crucial entre as pessoas, que podem se aproximar caso os interesses sejam convenientemente superiores e interessantes, permitindo uma maior porosidade, ou, na via contrária, o afastamento, ao sufocar tal permeabilidade nos casos em que o desinteresse se imponha?

Ou seja, pequenos mundos privados (unidades) jogam uns com os outros (grupo) na convivência, e conforme os seus interesses, permitem uma maior influência vinda de fora (mesmo sob a parcial ou a total incompreensão do outro), todavia, quando a disposição é reduzida, a discordância original ganha terreno na ordem das relações, agora, com menor entorpecimento do autoengano, ao “se permitir” enxergar sem o doce convencimento das necessidades e desejos tão caros à aproximação e à manutenção das relações humanas.

Um jogo primordial à evolução, que conta com vários aspectos, e, dentre eles, as emoções e os sentimentos, fortes o suficiente para criar as condições de aproximação ou de afastamento.

Por que agimos desta forma? Uma resposta razoável diz respeito ao nível de desenvolvimento em que nos encontramos, ainda presos ao importante egoísmo (mecanismo defensivo da sobrevivência evolutiva), cujo predomínio carece de transformação e conquista de outro mecanismo que já se encontra disponível, porém pouco desenvolvido: o altruísmo, parte também da engrenagem defensiva à sobrevivência da informação genética.

O egoísmo preserva zelosamente a unidade, o altruísmo resguarda a unidade em conjunto (e se opõe aos exageros do egoísmo), estabelecendo astuciosamente uma defesa mais eficiente. Duas jogadas estratégicas por excelência.

Desta forma, impedimo-nos, boa parte das vezes, de nos colocarmos no lugar do outro, usando a empatia para tentar compreender o seu mundo, para além do nosso.

Não contextualizamos as situações, e nos mantemos limitados a avaliar outras circunstâncias tão somente através da parcial ótica do nosso mundo. Não interpretamos conforme o contexto alheio, ou pobremente o fazemos, tornando insuficiente a compreensão necessária e esclarecedora sobre as outras unidades.

Prevalece, carentemente, a opinião centrada no próprio universo, a órbita que não alcança outras esferas, ou vastidões a serem entendidas e delas se extrair ainda mais e melhores estímulos a serem então devidamente ponderados e processados à porosidade das influências.

Assim, ressalve-se novamente o fato de que a autonomia do desenvolvimento ocorre pela intransferível responsabilidade pessoal, logo, depende de cada um a formação do caminho que conduz ao crescimento e, não obstante a tal imperativo, vale indagar: acaso não perdemos com a limitação autoimposta e despercebida por hora?

Não seria o momento de avançar, transformando o essencial egoísmo em um pouco mais de altruísmo (sem a ilusão de acabar — seria impossível — com qualquer engenho da natureza, que tanto sabe mais do seu antigo e imenso conjunto vital do que as partes separadas) a fim de extrair rica evolução disponível? Não está em nós esta maravilhosa capacidade de observar e refletir aos tons filosóficos da existência?

Autor: Armando Correa de Siqueira Neto, psicólogo e mestre em liderança.

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