A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando precisamos mais de uma sessão de cinema do que deitar no divã. Quando o bocejo do analista deixa de nos ferir, pois a gente se toca de que as nossas dores são como tapioca recheada com Nutella. Saborosas, mais banais.

A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando tomar uma cerveja com os amigos deixa de ser evento marcado com um mês de antecedência e passa a ser rotina. Quando podemos ficar lado a lado sem dizer nada. Quando respeitamos o afastamento do outro ou quando somos nós a nos afastar. Algumas coisas devem ser deixadas de lado mesmo, colocadas na sacola de roupas usadas para doar.

A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando sentimos que nem tudo o que os outros dizem é para nos ferir. E mesmo quando é, a tristeza pelas palavras atravessadas se torna página virada em nosso folhetim na esquina seguinte.

A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando desistimos de ensinar para quem não quer aprender. Quando a gente percebe que o outro ainda não está pronto para abrir mão do próprio sofrimento. Que algumas cicatrizes na pele da alma são inevitáveis e incuráveis, mas sem elas não seríamos nós mesmos. Quando a gente pode falar do passado sem mágoas nem medo.

A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando o sexo não precisa ser tão louco para ser gostoso. Que a gente quer escolher a posição mais confortável e deixar fluir. Que D.R só em último caso e que rir da gente mesmo é bem mais divertido do que zombar dos outros.

A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando paramos de dar corda para a neurose alheia e perdemos a vontade de reclamar de tudo a todo momento. Quando passamos a nos colocar em primeiro lugar, mas entendemos que o mundo não rebola com seus sete véus ao redor do nosso lindo umbiguinho.

A gente percebe que a psicanálise chegou num ponto bem elevado quando o sentido das coisas deixa de ser pergunta importante. Quando a gente olha para o caos com olhos de quem vê uma obra de arte.

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Sílvia Marques
Profa. doutora , idealizadora da Pós em Cinema do Complexo FMU, escritora e psicanalista. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


2 COMENTÁRIOS

  1. Olha, sou estudante de psicologia e muito fascinado pelo oque a psicanálise tem pra nos oferecer.
    Desses meus 21 anos de vida nunca li uma coisa tão evidente em nós e ao mesmo tempo tão bonita, OBRIGADO!

  2. Sílvia Marques, muito bem escrito seu texto. Às vezes é difícil se desapegar das sessões e acabamos usando como bengala. Muito bela a forma como você colocou a situação. Parabéns.

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