Imagine a cena: jovens operando aplicativos de celular, compartilhando dados pelas redes sociais. Eles estão mudando a forma de trabalhar da nossa sociedade. A nova geração, que nasceu com a mamadeira plugada na internet, veio para revolucionar o mundo: são dinâmicos, multitarefas, capazes de lidar com os desafios do mundo contemporâneo. Não aceitam mais trabalhar com livro de ponto, não têm hora para chegar em casa e seus relógios não são mais locais: são cosmopolitas e estão sincronizados com Tóquio, Londres e Nova York.

Era nesse estilo que discorria recentemente pela internet um vídeo muito bem produzido, alternando imagens e sons em várias rotações por segundo. Produzido com o intuito de mostrar os horizontes da tecnologia no trabalho, o vídeo foi visto por muitos milhares de pessoas e acompanhado também por milhares de comentários. Dediquei-me a ler alguns deles e detive-me em um que dizia: «E quem vai carregar o botijão de gás?».

De fato, por mais que a tecnologia prometa um futuro de realizações e anime até os mais amorfos, alguém tem que carregar o botijão de gás, dar banho no cachorro, levar a criança na escola, limpar o banheiro, controlar o almoxarifado, carimbar e protocolar as papeladas, vender seguros, trabalhar numa baia de empresa em meio de uma infinidade de reuniões e problemas diários. E isso não apenas ocasionalmente como uma tarefa menos excitante, mas como emprego habitual, dedicando muitas horas todos os dias e tirando daí o sustento próprio e da família.

Como é que ficam essas pessoas? Que vídeo podemos fazer para lhes abrir um panorama animador? O que diremos a elas? «Sinto muito, vocês tiveram azar»? O que podemos dizer para bilhões de colegas nossos deste planeta que enfrentam uma vida com dias repetitivos, monótonos, entediantes ou ao menos muito distantes das emoções de um filme de Hollywood?

Penso que não me engano ao afirmar que o sentido da vida cotidiana, o sentido da rotina e o sentido do trabalho – não são a mesma coisa, mas se entrelaçam – são grandes enigmas para o homem comum. Paradoxalmente, não só enigma, mas para muita gente certeza de que nesses momentos ordinários a vida não encontra sua realização e que, felizmente, há outras situações que aliviam, que dão esperança, sentido e felicidade. São os momentos em família, os tempos de lazer e os grandes eventos.

É precisamente isso que não quero nem devo aceitar, e é disso que este livro trata. Uma busca pelo sentido da vida cotidiana. Uma tentativa de dar relevo, graça e cor a tantas horas, dias e anos que parecem tão vazios. Uma maneira de integrar todos os momentos da vida num grande projeto que dá razão, explicação e garra para viver.

Do jeito que está não dá. Basta olhar para a cara das pessoas. Olhe para o rosto de um estudante em sala de aula, para um balconista, para um pedreiro assentando pedras portuguesas na calçada, para um gerente de banco… Estão gritando: «Me tirem daqui!» Mas, eis que essas pessoas subitamente mudam… A estudante puxa o celular e vê a mensagem na rede social dizendo que vai ter festa; o gerente coloca seus fones de ouvido e frui a sua música favorita; o pedreiro pausa para tomar uma cerveja gelada… Reparem no sorriso, o instante de felicidade, tal qual o enfermo que recebe a sua dose de morfina.

Evidentemente, parte dessas reações se deve ao fato de que o trabalho e o cumprimento do dever cansam, exigem esforço, concentração. São custosos. E não há dúvida, por outro lado, de que uma festa, um bate papo, ou outro tipo de lazer normalmente descansam, divertem, relaxam. Mas as sensações físicas e psíquicas não são o núcleo central de uma atividade. Não podemos reduzir o que fazemos apenas ao que sentimos. Não são o sacrifício nem o prazer a medida do valor de uma tarefa. Tanto é assim que nossa sociedade valoriza mais o esforço de um trabalhador do que as farras de quem vive de rendas. Sonhamos com uma vida de molezas sabendo, no fundo, que uma vida de trabalho e conquistas é algo superior, mais profundo e saboroso. Como o rapaz que deseja a moça belíssima ainda sabendo que outra – menos bela talvez, mas com a cabeça no lugar – é a melhor para casar e viver.

Já se falou da síndrome do domingo à noite. Um programa de tevê ou qualquer outra coisa serve para recordar que o fim de semana vai acabando e que já desponta uma segunda-feira com toda uma semana de compromissos, aulas, trabalhos e chateações sem conta. Entra uma angústia na alma: acabou-se o que era doce.

Por que se fala tão pouco desse problema da vida cotidiana? Por que há um grande silêncio sobre esse tema?

*Este texto faz parte da Introdução do livro “Buscar sentido na vida cotidiana”, de Maurício Dominguez Perez – mestre em Administração de Empresas pela FGV de São Paulo e doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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