Quando algo acontece, seja frustrante ou gratificante, pessoas tem manifestações emocionais. Isso não é exclusividade dos humanos. Acontece em animais, mais facilmente observável em mamíferos. Quando crianças, a expressão e a vivência das emoções está em processo de modelagem, ou seja, está aprendendo como pode se expressar. Dependendo da intensidade, da frequência ou do tipo de emoção, os pais podem se assustar/irritar e até surpreender-se com aquele comportamento e agir de maneira que pode ser interpretada pela criança como punitiva ou negligente.

Uma postura assertiva no aspecto emocional por parte dos pais ensina a criança, ao menos, três coisas: seus pais são seus amigos e se importam com o que sentem; podem contar com seus pais em situações que escapem o controle; e compreendem de que maneira podem expressar suas emoções. Vou abordar cada uma delas no texto abaixo. Vamos lá?

Seus pais são seus amigos: ao longo do desenvolvimento, os pais desempenham diferentes papeis, o centro do mundo, o herói, o vilão, entre outros. A forma como cada um é vivenciado pode causar impactos positivos ou negativos na idade adulta. Quando a criança aprende, logo nos primeiros anos, que pode contar com seus pais e expressar a eles o que sente, é estabelecida uma relação de confiança. Quando algo ruim acontece, terão nos pais uma referência segura. Além disso, sua angústia, tristeza ou felicidade não são ignorados. Esses sentimentos são acolhidos. Isso também ensina que ela pode validar seus sentimentos e que eles podem ser vividos.

Podem contar com seus pais em situações que escapem o seu controle: o grau de responsabilidade aumenta com os anos e nem sempre se está preparado para isso. Quando se é criança, a sensação de incapacidade é esperada, já que ainda se está aprendendo várias coisas. É importante que a criança reconheça que pode ser apoiada e ajudada pelos pais.

Aponto que não se trata de fazer tudo por uma criança, mas sim de ser uma referência de ajuda sempre que ela necessita. Ela precisa aprender aos poucos, respeitando suas capacidades motoras, psicológicas e necessidades de segurança.

Muitos pais têm dificuldade nesse período. Entre os motivos, identifico aqui apenas duas categorias para análise. A primeira é o desejo de se fazer necessário e a segunda é a falta de conhecimento sobre o que a criança pode fazer. Em relação a primeira, ela pode ser influenciada por vários aspectos: ser o primeiro filho, desejo de engravidar persistente que demorou a se realizar, o fato da criança ter nascido prematura ou com alguma dificuldade ou deficiência, personalidade insegura dos pais, entre outras.

Esses fatores auxiliam que os pais auxiliem os filhos em tarefas que poderiam ser feitas sozinhos, o impedimento de que as crianças aprendam coisas novas, o afastamento de pessoas e lugares que permitam interações diferenciadas. Nesses casos, usualmente, não se trata de um processo consciente. Possivelmente, os pais que tem comportamentos como os que citei aqui o fazem com ótima intenção, com o intuito de proteger. No entanto, eles impedem o desenvolvimento de uma independência emocional e real dos filhos.

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Quanto a segunda hipótese, observo que há desconhecimento por parte dos pais quanto aos processos de desenvolvimento das crianças. Partem ou da experiência com outros filhos ou de pessoas próximas. Não há nada de errado com isso. São conhecimentos válidos que não podem ser descartados. Levanto a necessidade de também informar-se em outras fontes, como a medicina, psicologia ou odontologia. Existem diversas formas de se fazer isso: literatura, grupos de acompanhamento pré natal (realizados em postos de saúde ou hospitais), vídeos no Youtube, entre outros. Compreendo que o acesso a essas fontes nem sempre é possível e que existe material de qualidade ruim e duvidosa, mas aos que podem contar com isso é um grande auxílio

Compreendem como podem expressar suas emoções: Uma criança vai testar seus limites. Ela não o faz com o intuito de provocar o adulto (a não ser que tenha aprendido anteriormente que receberá alguma recompensa assim, como atenção), mas sim porque precisa entender o que pode fazer e até onde pode ir sem ser punida. Esse primeiro núcleo traz aprendizados para todas as outras relações ao longo da vida. A criança pode generalizar a forma como age e/ou como se comportam com ela, entendendo que pode aplicar o que foi aprendido com os pais em outros núcleos (escolares, sociais); ou pode discriminar que pode fazer o que quiser com eles, pois seus comportamentos não tem consequências e ser diferente em outros ambientes, já que estão se relacionando com pessoas que fornecem novos modelos de conduta.

Crianças são muito sensíveis ao ambiente que as rodeia, porque ainda não têm um repertório rígido formado. Além disso, sua capacidade cognitiva é ampla. Quando se deseja ensinar algo, o melhor momento é na infância. Isso também se aplica a controle e assertividade emocional. Se os pais corrigem (percebam que a palavra nunca é punir) e orientam, a criança entende como ela pode manifestar o que sente de forma a não ser prejudicial a si ou aos outros.

Outro ponto importante é a linearidade entre o que é dito e o que é feito. Já recebi pais no consultório que diziam ser adequados em suas orientações, mas que recebiam o contrário dos filhos pequenos. Ao longo do trabalho, percebia-se que os pais enviavam mensagens duplas às crianças. Diziam algo e faziam outra coisa. Isso causava confusão e provocava comportamentos não condizentes com o esperado das crianças. Essa situação pode ser a realidade de vários pais que estão lendo esse texto e requer atenção, afinal se está criando um ser que viverá em sociedade.

Não pretendo por meio desse texto esgotar o tema e nem creio que isso seja possível. Procurei explorar nuances que mais observo no consultório e que valem a pena uma reflexão. Apesar de ser repetitiva em alguns momentos, reforço novamente a ideia de que a educação das crianças não precisa ser punitiva, o que não significa que será sem limites. Correção, limites, regras, disciplina são elementos tão necessários à educação quanto o amor, respeito, atenção.

Obviamente erros serão cometidos e isso é normal. Creio, no entanto, que eles podem ser minimizados se houver atenção para os tópicos que levantei aqui e outros que você pode encontrar na literatura e em outras fontes de conhecimento.

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