Muito se discute acerca da agressividade como uma característica puramente negativa, de necessário total controle. É comum a ideia de que o ser humano, desde muito cedo, deve aprender a controlar seus instintos, controlar a pulsão agressiva, desenvolver a mansidão, delicadeza e graça.

Tomando a agressividade como foco deste ensaio, é importante diferenciá-la do ato violento.

O controle da violência é sim, em certo sentido, fundamental para a convivência em grupo, importante para a manutenção da sociedade. Entretanto, existem núcleos agressivos que devem ser desenvolvidos e amadurecidos, pois são de igual importância até mesmo para que a “mansidão, delicadeza e graça” sejam elementos de uma verdade interna e não protagonizados de modo falso.

Na contemporaneidade, se diz muito de uma agressividade destrutiva, que realmente existe em larga escala. Mas se esquece de dizer que a agressividade é também um potente instrumento humano para mudanças.

Se opondo ao ato violento, a agressividade pode ser utilizada de modo pulsante, instigante, inteligente para provocar uma ação de enfrentamento à realidade que muitas vezes ameaça destrutivamente a vida. Não apenas as questões individuais estão em jogo, mas também as coletivas, nas quais a política se destaca enquanto um instrumento de mudança. A politicagem, entretanto, deturpa, estagna, provoca misérias de diferentes magnitudes. Nesse ponto, contra a politicagem, a agressividade da população seria muito bem-vinda.

Os que produzem politicagem sabem muito bem que a agressividade existe, por isso deslocam o impulso agressivo da população para outras áreas, como a moralidade, polarização política, polarização de ideias, entre tantos outros mecanismos de distração e deslocamento da pulsão agressiva.

No horizonte das marionetes, a agressividade da população deixa de atingir seu papel mais importante, o de impulsionar, tencionar barreiras e transgredir uma triste realidade que atinge diretamente inclusive a saúde mental de muitos, talvez todos.

A partir da conscientização do papel agressivo e sua relação entre o interno e externo, insights e ações interessantes podem surgir.

Para a reforma de uma casa ou para uma nova construção, por vezes, é necessário destruir partes ou o todo da estrutura antiga. A agressividade transforma uma energia interna em ação construtiva. Uma ação que pode ser inteligente, oportuna e preciosa para produzir significativas mudanças internas e externas.

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João Paulo Zerbinati
Psicólogo clínico de orientação psicanalítica, atendendo em Itápolis-SP. Graduado pela PUC (2014). Mestre pela Faculdade de Ciências e Letras, UNESP (2017). Membro do grupo de pesquisa SexualidadeVida USP\CNPq. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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