Alma gêmea me remete ao Mito de Andrógino.
Diz a mitologia grega que originalmente havia três sexos: homem, mulher e a junção deles. Estes últimos seres tinham quatro braços e quatro pernas. Tinham também uma cabeça com dois rostos virados para lados opostos e um formato arredondado. Podiam caminhar para frente e para trás e tinham um poder imenso e podiam também rolar. Eram os Andróginos: Homem (andros) e Mulher (gynos).

Estes seres quase perfeitos que eram filhos do Sol, da Terra e da Lua se tornaram ambiciosos e quiseram se igualar aos deuses, mas Zeus (o Deus do Olimpo) decidiu dar a eles uma lição. Dividiu-os ao meio feito maças e enquanto fazia isso Apolo ia virando-lhes os rostos para frente, para que olhassem para sempre para a parte amputada e ia lhes moldando e costurando.

Eles então ficaram parecidos com os dois primeiros sexos (homem e mulher), entretanto, não eram mais inteiros. Isso fez com que estes seres morressem de fome e desespero. Abraçavam-se e ficavam assim até a morte. O primeiro que morria fazia com que o outro ficasse perdido no mundo, e sem sua metade, acabava morrendo também.

Mas Zeus (Deus) é misericordioso e, com pena das criaturas virou então suas partes reprodutoras que estavam nas costas para a nova frente onde estavam agora os seus rostos para que, num abraço, eles pudessem se unir novamente. Eles, que antes copulavam com a terra (a mãe natureza) agora poderiam copular uns com os outros, porém a alma saberia que só o reencontro com sua antiga metade em um abraço os libertaria da saudade e da busca eterna.

E esta é a nossa história. Um dia nós fomos perfeitos, plenos e inteiros. Poderosos portadores do amor que hoje só Deus possui. Fomos partidos ao meio e aprendemos o que é a falta, a saudade. Vivemos a busca incessante pelo abraço que nos fará sentirmos novamente inteiros.

Este é o mito de Andrógino e está no Banquete, escrito pelo filósofo Platão. Os mitos não são folclores e nem tampouco fábulas. Mitos são oriundos do inconsciente coletivo, veem da nossa intuição e são transformadas em contos e este talvez faça uma referência aos casais heterossexuais.

Na verdade, o mito da alma gêmea foi criado por Platão que em seu livro O Banquete tenta definir o que é o amor. E nessa busca, muitos convidados de uma festa, cada um por vez, faz um elogio ao deus Eros (deus do amor).

Um dos momentos mais fascinantes do texto é quando toma a palavra o comediógrafo Aristófanes. Ele faz um discurso belo e que se imortalizou como a teoria da alma gêmea.

Sempre me perguntam, quando faço menção a este conto, como a mitologia explica os casais homossexuais. Vejam, duas hipóteses podem ser aceitas aqui. A primeira é que eles não pertencem à espécie humana repartida, afinal, o mito faz referência à existência de três sexos inicialmente, então, os homossexuais seriam as já existentes espécies homem e mulher.

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Há também a hipótese reencarnacionista que nos mostra com clareza que ocupamos corpos masculinos e femininos conforme caminhada evolutiva.

A verdade é que os mitos existem como que para explicar nossos sentimentos e o nosso comportamento, usando linguagem poética e, particularmente este mito sempre bastante sentido para a humanidade visto que em todos os tempos, em contos, lendas e também na vida real, seres humanos relatam a dor pela saudade e a busca pela metade que possa finalmente lhes trazer o sentido de toda uma existência e a paz em um abraço.

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Viviane Battistella
Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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