Eu solteira sou um desastre. Talvez porque eu fique plantando rosas em solos aquáticos. Ou talvez eu seja a única a despir a alma no meio do quarto. E a mostrar quão complexamente simples é uma pessoa que se recusa a vestir a fantasia dos jogos.

Talvez, em certo momento, tudo em mim vire um presente muito facilmente desembrulhável e então é deixado de lado depois de algumas brincadeiras. Talvez eu seja peteca em terras de jogos digitais: tão singela, tão inútil, tão difícil de entender o uso nos dias de hoje… sem sentido, talvez, mas de alguma forma despertando alguma nostalgia nos corações.

Solteira, eu sou um desastre.

Fico pisando em ovos para não ser atingida por irresistíveis investidas. Fico cheia de dedos, tateando o escuro das almas desconhecidas. Fico fora do meu coração, tentando captar sentidos e significados nos gestos, antes de deixar um alguém criar em mim frestas. Fico fechada, buscando mais paz do que amor.

Até que… até que bate uma atenção cuidadosa, até que olhos parecem chegar perto, até que, pela posição da lua, pelas garrafas de vinho vazias, pela necessidade de arejar o mofo das minhas paredes de pedras, eu, sem perceber, decida escancarar minhas portas, devagar, mas completamente.

E aí meu filho, não é pouca gente que não queira quase que de imediato sair correndo. Alguns vão de fininho, outros bruscamente, tem gente que ainda fica, vez ou outra traz uma marmita. E eu fico mal, fico bem, ligo o foda-se, fico zen. Orgulhosamente remendando meu coração com consolos.

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Eu solteira, uma hora caio, uma hora entro, outra hora já nem tento. Mas sempre desastradamente saindo nada ilesa, talvez mais lesada e desentendida dos funcionamentos alheios.

Fico gastando tempo me recompondo e criando truques para o meu pensamento parar de aportar naquela ilha inventada. Fico gastando energia para criar, depois destruir; para entrar e depois sair; para amar e depois ignorar.

Comicamente dramática. Desabando lágrima para ver se o oceano de dentro seca de uma vez e para ver se a calmaria pós-ressentimento dá logo as boas-vindas.

É muito desprendimento, é muito dilúvio, são muitas estações chegando nessa minha terra antiga, numa alma que teima em preservar o acreditar.

Eu solteira… penso que qualquer assunto é assunto para uma prosa poética.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é paulista dos interiores, nascida nos anos 80. É escritora, poeta e agitadora cultural. Faz parte do grupo editorial Laranja Original. Publicou, pela editora Chiado, o romance poético Castelos Tropicais (2015) e a coletânea de poemas, pela editora Sempiterno (2016), Instruções para Lavar a Alma. Em 2017 lança, em parceria com músicos e compositores, o álbum Lavar a Alma, que reúne 13 de seus poemas musicados. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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