O fim de um relacionamento é, para muitos, um momento de fragilidade, frustração e fracasso. Por causa disso a maioria se vê destreinada na arte de seduzir e paquerar quando termina. Homem e mulher; esse sentimento afeta todos os sexos na mesma proporção.

O fim do casamento provoca muitas dores, mas também traz oportunidades de recomeçar. No início é como se fosse a morte, até descobrirmos que estamos mais fortalecidos e assim poder partir para um novo relacionamento, sabendo que, desta vez, pode-se ser mais maduro, intenso e prazeroso. Pode ser através do erro e do fracasso de uma relação a oportunidade de refletirmos sobre o que fazer para acertar na próxima tentativa.

Para algumas mulheres quando o marido vai embora, a sensação não é apenas de que o projeto a dois acabou, mas de que tudo chegou ao fim, tudo morreu. Com filhos para criar, contas para pagar e sem parceiro para dividir o dia-a-dia, a mulher pode concluir que nunca mais terá espaço para si. Em outros casos essa sensação é dividida com a sensação de alívio, porque muitas vezes a relação estava excepcionalmente ruim.

Na maioria das vezes as desvantagens são maiores para a mulher do que para o homem, porque ela foi formada para ser a acolhedora e maternal. Na separação, ela se vê como uma fracassada, a mulher sente um vazio interior e pode até desenvolver um quadro depressivo. Isso porque a perda não pesa apenas sobre quem é abandonado e traído, mas sobre qualquer um que vê seu projeto se desfazer. Quando você perde alguém, vai junto um pedaço de si, um modo de se olhar. Algumas mulheres relatam que “colam os cacos” quando conseguem jogar no lixo (literalmente) o travesseiro do ex-marido, que ela mantinha intacto, na cama, seis anos após a separação. Tem um trecho na filosofia Chinesa que diz: “Não se deve voltar a um local onde se foi feliz um dia. A razão é simples: você não está mais lá”.

Porém não podemos nos precipitar nesse juízo, que sempre está respaldado no ciúme, no pensamento de que a mulher é sexo frágil. A reconquista da felicidade depende só de alguns rearranjos. O primeiro deles está ligado à aceitação da dor. É necessário viver a perda, deixar que o luto pela morte do amor tome conta do coração. É ótimo preventivo contra crises futuras. Eu creio que seja preferível à amargura das emoções. Após o momento de luto as mulheres conseguem ver mais vantagens na vida de recém-separada como por exemplo a conta bancária individual para quem nunca teve a liberdade para viajar para onde quiser quando as crianças ficam com o pai. Elas costumam a aprender uma outra lição: É possível amar outro homem mesmo ainda amando aquele que um dia foi seu marido. Uma frase de impacto citada por uma das minhas alunas é válida para ser colocada aqui: “A gente não precisa esperar a liquidação da fatura do casamento para começar a olhar para o lado”.

Do lado psicológico e filosófico é possível afirmar que um dos motivos de ser tão difícil vencer uma separação é porque hoje, mais do que nunca, o casamento representa uma tentativa de atingir a eternidade. No mundo contemporâneo, em que tudo é volátil, há necessidade de correr atrás daquilo que dura, que marca. Isso justificaria altos investimentos nos rituais, da festa à lua-de-mel. Tudo fica documentado nas fotos e na memória. O Ser Humano recorre a elas sempre que quer se lembrar de quem ele é. Essas aspirações – guardadas as proporções e o estofo financeiro para realizá-las – são as mesmas nas classes alta, média e nas baixas.

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Do casamento, decorrem planos de ter filhos e estar acompanhado até o fim dos dias: então, ver a “eternidade” ruída é profundamente frustrante. Um dos primeiros passos para a recuperação é ter esperança. Lembre-se de que você rompeu um casamento e sobreviveu. Se compreender que não se morre disso, estará quase pronto ou pronta para dar o primeiro passo. Eu sugiro que você comece a busca, derrubando o mito do amor romântico. É verdade que, numa parceria rica, um desperta as qualidades do outro. Mas ninguém dará ao par o que ele não tem na sua essência. Ao se ver sozinho ou sozinha, faça um exercício. Retome coisas que você fazia antes de casar e outras que abandonou porque o casal se acomodou.

Questões para reflexão:

1) A dor demora mais passa. Nessa fase, não se apresse em substituir o ex. As novas possibilidades ficam sujeitas às comparações. O fantasma do antigo cria uma sombra sobre o futuro.

2) Você tem certeza de que não merece o que está vivendo. Ninguém merece. Mas quase todas as pessoas levam um fora. Para não piorar a situação, rejeite o papel de vítima e evite mendigar.

3) Aceite a realidade, mesmo que a tarefa seja penosa como sobreviver a um naufrágio. É natural passar por estágios de negação, revolta, ódio e depressão até chegar à aceitação.

4) Perdoe. O perdão dissipa a raiva e os sentimentos negativos e deixa o coração mais leve.

5) A humildade é importante. A dor aumenta quando você se deixa guiar pela vaidade. Acreditar que está sendo vista como uma fracassada retarda a superação dos problemas. Livre-se do orgulho.

6) Preserve o amor dentro de você. Não deixe que a tristeza e a amargura apaguem o que viveu. Cultive a gratidão pelos bons momentos.

7) Faça a eutanásia da paixão. Uma história que se tornou inviável precisa ser eliminada. Retire, dia após dia, a importância que deu à pessoa a quem admirou.

8) Antes de tomar qualquer atitude, pense nos seus filhos. Eles também sofrem, estão juntos nessa empreitada e merecem prioridade.

9) Enterre os mortos, e cuide dos vivos. Sepultar os mortos é parar de lamentar a tragédia e de se recriminar por ela. Cuidar dos vivos quer dizer tomar conta do presente, ter cautela com o que sobrou, valorizar o que há de bom em sua vida. E finalmente: nós mudamos, somos dinâmicos, nos aperfeiçoamos a cada dia, na profissão, desenvolvemos a autoconfiança, dentre outras mudanças boas.

A partir da emenda dos cacos e dos aperfeiçoamentos, homens e mulheres podem sentir a melhor coisa do mundo – a liberdade.

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Sônia Eustáquia
Colunista da Revista Atrevida cerca de 6 anos, tem formação e trabalho em Psicanálise e Terapia Ericsoniana. Pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior, Psicologia e Psiquiatria da Infância e Adolescência, Neuropsicologia e Teologia. É colunista do site Fãs da Psicanálise.

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