A questão do feminino constituiu o ponto de partida da psicanálise e continua a mobilizar os atuais analistas, que não se deparam apenas com os sintomas histéricos da época freudiana, e sim com um leque diversificado dos chamados “sintomas contemporâneos”.

Freud interessou-se pela sexualidade feminina e pelas questões de amor no início de seu percurso e, há mais de 80 anos, fez uma pergunta que permanece viva: “Afinal, o que quer uma mulher?”

Resposta dos pós-freudianos: querem ser amadas.
De forma didática e extremamente resumida, a teoria psicanalítica argumenta que as meninas sentem inveja do órgão sexual masculino (chamado de falo) durante o processo de constituição do sujeito.

Elas se sentem prejudicada com esta falta no corpo e passam a desejar o que sabem que não têm e que nunca terão. Portanto, desde o começo, elas são marcadas pela falta no corpo.

É através da lógica do “não ter” da mediação fálica que a mulher se define inconscientemente. Elas vivem esta falta do Complexo de Édipo como uma falta de amor, um “menos” que sempre estará presente nas relações e que elas não cansam de se queixarem. Daí, o apelo ao amor ser tipicamente feminino.

Por outro lado, ao dizer que as mulheres são faltosas, quer dizer que elas são desejantes, pois só se deseja algo que não se tem. E é o desejo que as move por mudanças dentro da prática amorosa.

Mas as mudanças não aconteceram apenas na relação com seus parceiros. Nos últimos 50 anos a mudança na vida das mulheres foi enorme e em todos os aspectos: social, profissional, sexual, familiar, educacional, maternal e na estética.

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Entretanto, apesar das conquistas estabelecidas, as mulheres continuam insatisfeitas não apenas a nível inconsciente, mas também conscientemente porque almejam padrões de perfeição que a mídia prega ser possível conseguir. Então, elas começam a ler manuais sobre como agradar o marido, como educar os filhos, como encontrar a felicidade.

As mulheres ditas modernas se submetem a todos os tratamentos estéticos para ter o corpo ideal, fazem cursos sobre como obter sucesso, passam a gostar de futebol, fazem aulas de sedução, estão sempre na moda, fazem meditação, buscam a espiritualidade, cartomantes, horóscopos, livros de auto ajuda, manuais para ser feliz em 10 passos, elas consomem tudo o que é saudável e mais mil coisas. Enfim, transformam-se em verdadeiras super-heroínas que não permitem falhas.

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Ao tentar controlar as relações amorosas, elas não se deixam mais conquistar. Quando já estão em um relacionamento, não entendem que as dificuldades da vida a dois podem ser justamente o tempero para a manutenção desta.

Sendo assim, as relações têm sido descartáveis, os parceiros são substituídos por outros sem tempo para elaborar o luto, em um pensamento equivocado de que um outro preencherá a ferida que está aberta. E, como a falta sempre existirá, como o buraco ou, como alguns costumam chamar, “o vazio interior” nunca será inteiramente preenchido, elas adoecem psiquicamente nesta busca desesperada da satisfação plena.

O processo de análise traz o que é da ordem do sofrimento para o regime da palavra e vai além do processo terapêutico de responder à demanda, minimizando a lógica do reconhecimento do outro.

Durante a sessão terapêutica, no ato de convidar o paciente a falar, é possível uma construção da própria versão da feminilidade, já que não existe um caminho universal para este processo. Se Freud alertava para o fato da perda do amor para a mulher ser o constituinte principal do desamparo humano, ao viajar para este lugar desconhecido que é o inconsciente, podemos trazer para a consciência a ideia de que é a possibilidade da falta que aponta para o amor.

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Rosa Abaliac
Psicóloga e mestre em Psicologia Social. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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