O homem nunca teve ao seu alcance tantas ferramentas de interação e comunicação como hoje. No entanto, o sentimento de angústia, causado pela solidão, está cada vez mais presente no cotidiano.

A psicóloga Sônia Eustáquia Fonseca, considera que o consumismo e a crise de valores ético-morais têm causado mal estar em decorrência da solidão. Ela, que é especialista em Psicologia e Psiquiatra na Infância e Adolescência, enfatiza o papel fundamental dos pais na orientação dos filhos quanto aos relacionamentos online, e acredita que a espiritualidade e a fé podem ajudar o ser humano a vencer as angústias.

A solidão aprece tomar proporções maiores na atualidade. O ser humano está de fato se isolando?
A solidão no sentido de estar desacompanhado não é uma característica de que o ser humano em sua essência goste. Vale lembrar que o livro mais lido do mundo, o texto bíblico, traz a narrativa da criação e nela a vontade do criador de que o ser humano não fique só. Por que o ser humano estaria se isolando? Eu creio que os meios de comunicação, principalmente os eletrônicos, estão mudando o rumo e as “cores” desse estar no mundo e estabelecer relações. Quando um jovem fala com outro pelo “MSN”, está sozinho em seu quarto, mas sente-se acompanhado pelo seu amigo interlocutor. O sentimento de desamparo possivelmente não está presente ali.

Antes, as pessoas se encontrarem, presencialmente, para conversar. Quando se perde este aspecto da presença física as relações ficam empobrecidas?
Fisicamente estamos sim mais isolados, mas não creio que sozinhos. Eu prefiro falar com os meus amigos pessoalmente, sem hora para acabar e não precisar de uma máquina para fazer isso. Em alguns momentos não gosto nem mesmo do telefone, mas eu nasci em 1950 e isso faz toda a diferença. Mesmo assim, tento acompanhar a evolução dos tempos, tenho facebook, Orkut, e-mail, site, celular e dois telefones fixos. Essa nova geração gosta das máquinas, dos equipamentos eletrônicos e dos botões. Freud escrevia cartas, muitas cartas mesmo, comunicava suas ideias, pedia sugestões, namorou Marta, posteriormente sua esposa através das cartas. Uma boa parte de sua teoria está nas cartas, que naquela época era o principal instrumento para comunicar ideias. Hoje nós temos outros meios que parecem mais solitários, mas não são. Não faço apologia ao que já passou, ando, olhando para frente e para onde piso. O que está atrás temos que olhar pelo retrovisor.

Quando o comportamento de isolamento pode ser considerado salutar e quando ele começa a ser objeto de preocupação?
Ele é saudável quando for usado para refletir, rezar, meditar, ouvir música, criar alguma arte, estudar. O isolamento sem o sentimento de solidão é muito gostoso de ser vivido e às vezes muito necessário, principalmente para a criação artística. O isolamento pode ser considerado objeto de preocupação quando o sentimento presente for de angustia.

A partir de que momento é aconselhável procurar-se ajuda especializada?
Quando o sentimento de angustia transforma-se em uma constante. Pode ser que nesse momento a angustia existencial que é inerente ao ser humano, tenha se transformado em um quadro depressivo. Vamos detectar isso através da queixa da pessoa em relação ao sentimento de abandono, desamparo e solidão que sente continuamente, mais o desânimo para atividades cotidianas ou criativas.

Em um de seus poemas, o compositor Chico Buarque afirma que solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma… Esse pensamento encontra fundamentos na psicologia?
É um texto poético lindo, sem dúvida. Eu acho que ele nos instiga a ir fundo em nossa subjetividade e buscar a compreensão da nossa solidão. O jeito de senti-la, bem como o de entrar e sair dela é singular em cada ser humano. Creio que utilizando a poesia, Chico diz da castração, termo psicanalítico que conceitua o sentimento de falta, existente em todas as pessoas normais e que é produzido pelo outro. Este sentimento começa nos primeiros momentos de nossas vidas.

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A que consequências à busca da completude no outro pode levar o ser humano?
A busca da completude em outro ser humano parece ser o melhor destino das nossas pulsões afetivas e sexuais. Nós nos tornamos ou nos sentimos mais completos, através da complementaridade ajustando em mim o que o outro tem e o que eu não tenho e vice-versa. É como se fossem os dentes de uma engrenagem: um “dente” de uma esfera entra na falta de “dente” da outra esfera. Só assim a engrenagem torna-se dinâmica, boa e necessária.

A convivência mais intensa com a violência e a deslealdade, nos dias de hoje, poderia, de algum modo, induzir a pessoa à solidão?
Acredito que o medo produza nas pessoas uma atitude de recuo frente ao outro, de modo geral. São os tempos atuais. Hoje prevalecem as estruturas e os traços perversos. Por isso, como defesa, temos que desenvolver algumas características de sua época, marcada pelas neuroses de repressão sexual e de guerra. Assim as neuroses histéricas e obsessivas ganharam explicações e tratamento. Hoje vivemos um tempo de perversões. Por isso o medo de uma convivência em que frequentemente ocorrem traições e deslealdades é cada vez mais presente.

É possível preencher o vazio da solidão com relacionamentos virtuais, cada vez mais comuns nas mais variadas faixas etárias?
Os relacionamentos virtuais já fazem parte do cotidiano. Eles têm a mesma proposta de investimento libidinal, termo que na Psicologia define a pulsão de energia de vida existente nos relacionamentos não virtuais. No fundo, o objetivo é não estar só. Às vezes o espaço virtual é uma tentativa de conseguir, por exemplo, um relacionamento amoroso, difícil de ser conseguido pelas vias que anteriormente eram tidas como naturais. Conheço pessoas que se deram mal, o que acontece pelas vias naturais também. Já vi um namoro e noivado que prevaleceu cheio de amor durante 11 anos, e o casamento só durou seis meses.

É indicada a intervenção dos pais quando percebem que o filho está substituindo os relacionamentos presenciais pelos virtuais? Que conduta é apropriada nessa situação?
Quando se trata de filho menor de idade é necessário que os pais acompanhem toda a ação que essa criança, adolescente ou jovem tem pela internet. Isso, porque eles ainda não têm total discernimento para muitas coisas da vida. Muitas vezes não sabem o que é “do bem” e o que é “do mau”. Na internet, na TV e em quase todos os meios de comunicação tem de tudo. Quem vai selecionar é a família, a ela cabe isso. Ela deve ser a principal responsável pelas escolhas de programas na TV, sites na internet e etc., a que a criança poderá ter acesso. Eu sei que é difícil, mas é possível com muito diálogo.

Como a Senhora analisa o comportamento das pessoas que, ao mesmo tempo em que esboçam um perfil individualista, travam uma busca interminável para preencher a falta existencial e a solidão?
A falta não vai ser preenchida nunca. Ela faz parte da existência humana. A busca é interminável mesmo. É uma tentativa vã de preencher a solidão produzida por essa falta existencial. Às vezes é só o perfil que é individualista. Ele é um mero ‘avatar’, uma máscara de proteção. Porém a pessoa que a usa é igualzinha a todo mundo: só, carente, ávida em ter e receber amor.

A Senhora considera que os valores da sociedade de consumo poderiam levar, a patamares preocupantes, a sensação de insatisfação de vazio?
Creio que nossa sociedade em todas as classes sociais está muito mais preocupada em ter do que em ser. O homem atual acaba dando mais valor para os objetos e riquezas acumuladas do que para as forças e potencialidades humanas. Esse modo de funcionamento do capitalismo contemporâneo possui grande influência na estrutura do caráter do homem atual.

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Pessoas que ganham salário mínimo compram tênis de 700,00 reais para o filho, para pagar em 10 prestações, considerando isso a coisa mais natural do mundo. Faz as vontades do filho, em vez de assumir a condição de educador. Nessa ocasião, a família confirma para esse filho que ter é mais importante do que ser; é um valor invertido.

É preciso ensinar a esse filho que existe um tênis que pode ser comprado sem prejudicar o orçamento da família. Por outro lado, o que anteriormente satisfazia a classe média, hoje, já não mais satisfaz. É comum uma pessoa que não tem renda familiar para comprar um carro importado, compra assim mesmo só para ostentar para os outros. É assim que a sociedade permite que o mercado seja regulador de suas relações econômicas e sociais.

Trabalhar a espiritualidade pode contribuir para transformar as frustrações decorrentes do individualismo?
Sem nenhuma dúvida. Eu tenho certeza que ‘tiramos’ da espiritualidade valores éticos fundamentais para viver bem e transformar as frustrações em aprendizado. O individualismo é característica da sociedade pós-moderna. Ele é diferente do amor próprio ou da autoestima. Difere também da responsabilidade que cada um deve ter consigo. Eu sempre digo que o primeiro mandamento também pode ser cumprido de trás para frente. Amar e respeitar a si são condições para transcender em amor pelo outro, e só assim amar a Deus. Se eu não conseguir me amar, eu não conseguirei transcender esse amor para chegar até o meu próximo e consequentemente eu não estarei amando a Deus.

É possível a solidão ser prazerosa? Que pistas a Senhora apontaria para quem busca estar de bem com a vida?
Claro, o sentido da vida consiste no prazer de procurar preencher a falta e a solidão que nunca cessam. Por isso desfrutar profundamente de cada momento de uma relação vivida, de cada sensação sentida consiste na tão almejada felicidade.

Temos que entender que estar só não significa derrota, tampouco fracasso. As pessoas precisam aprender que, em última instância, estão sozinhas e isso é necessário para seu desenvolvimento pessoal, porque assim procuram pela complementariedade numa dinâmica boa, prazerosa e calma. O outro não deixa de existir, não é necessário deixar de partilhar momentos, dividir os pesos da vida, as alegrias e até a dor, mas não é no outro que se encontra a liberdade e nem a felicidade. Ninguém pode dar isso a ninguém. É preciso achar a liberdade dentro de si, buscar respostas que só em nossa íntima solidão podem ser encontradas. Daí, eu acrescento Deus nessa busca e ela fica sempre mais serena, porque Deus é leal e não nos abandona nunca.

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Sônia Eustáquia
Colunista da Revista Atrevida cerca de 6 anos, tem formação e trabalho em Psicanálise e Terapia Ericsoniana. Pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior, Psicologia e Psiquiatria da Infância e Adolescência, Neuropsicologia e Teologia. É colunista do site Fãs da Psicanálise.


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