É estranho quando alguém vai embora sem avisar. As coisas ficam tão quietas como se esperassem uma explicação. E a gente não tem o que falar porque ainda não entendeu nada. Não tem nem coragem de trancar a porta porque aquela pessoa tinha hora certa pra chegar. Depois de um tempo, a gente quer mudar a cama de lugar, colocar uma cortina rendada e alterar a cor da fachada, mas o dia é sempre cinza quando a gente anoitece por dentro.

É muito estranha essa sensação de ficar sem lugar dentro da própria casa porque nosso aconchego era no peito de uma pessoa que não mora mais ali. E a gente se dá conta que está desabrigado, empunhando uma saudade que não passa, aguentando um silêncio que não se quebra com a cor da voz daquela pessoa.

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A ausência ocupa muito espaço. E a tristeza resvala nas coisas que a gente lembra, e a gente se sente tão ferido sem saber qual é a parte que dói mais.

A gente tira as coisas do lugar pra ver se as coisas mudam, mas elas continuam gritando o nome daquela pessoa que foi embora. E a gente chora, quer ir embora também pra ver se encontra na rua àquela pessoa, que sempre esteve tão do lado de dentro e agora é como se a gente montasse guarda pra ver se acha algum vestígio, alguma partícula que tenha o cheiro e a voz, que aos poucos vai se dispersando na poeira dos dias.

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É muito estranho quando alguém vai embora sem avisar e a gente olha aquela roupa mais estimada e pensa que ali dentro vivia uma pessoa feliz. E a gente veste aquela roupa pra tentar se aproximar do cheiro daquela pele, mas é só uma camada de pano cheia de linhas soltas, é só o invólucro da ausência que a gente tenta abraçar pra ver se pega de novo aqueles traços, aquele jeito de olhar, aquelas manias que a gente reclamava e que agora sente saudade até mesmo da toalha molhada em cima da cama, mas, a gente não tem mais aquela toalha.

É muito estranho quando alguém “joga a toalha” e vai embora sem avisar porque a gente sempre espera resolver tudo numa conversa antes de deitar e planeja fazer alguma surpresa para o jantar pra ver se fica tudo bem, mas, de repente, aparece essa argola de angústia rodeando o pescoço porque não se sabe se a pessoa perdeu mesmo o rumo de casa ou não quer mais voltar.

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Mas é estranho porque talvez ela tenha avisado num gesto qualquer, que a gente não tenha interpretado como um sinal de despedida, mas era a última vez, e aí, a gente rebobina as cenas, e chora de novo como se fizesse um “remake” de um filme que já acabou. É estranho… é muito estranho.

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Ester Chaves
Ester Chaves é escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-Graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participou de vários eventos poético-musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. É colunista nos sites “CONTI outra, artes e afins”, “A Soma de Todos os Afetos”, “Escritos Meus” e “Fãs da Psicanálise”.



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