E se eu não for no almoço anual das meninas que estudaram balé comigo de 1900 a 1902? E se eu não for no aniversário da prima super simpática, porém inexpressiva, de uma amiga que na verdade nunca foi muito minha amiga? E se eu deixar de mandar felicitações para um ex-colega por uma promoção conquistada por meios escusos?

E se eu não enviar uma mensagem florida de Natal para todos os parentes que nunca deram bola para mim?

E se eu preferir passar as férias em casa, curtindo o meu jardim a enfrentar horas na estrada? E se eu decidir que eu quero deixar o celular desligado por uma semana enquanto me mato de ver séries no Netflix?

E se eu descobrir que nem todas as mensagens devem ser respondidas, que nem todas as pessoas que me procuram por algum motivo merecem doses idênticas do meu afeto? E se eu concluir que a vida sem algumas pessoas, sem algumas atitude, sem algumas imposições, sem algumas curtidas por obrigação fica bem melhor?

E se eu descobrir que nem todo mundo precisa me achar simpática? E se eu descobrir que não preciso ser simpática com todo mundo, apenas educada? O mundo vai cair?

O mundo vai cair se a gente parar de fazer média e tentar conquistar o carinho de pessoas que não estão nem aí para nós? O mundo vai cair se a gente admitir para nós mesmos que para ser o nosso amigo não basta ser bonzinho, tem que ter algo a mais? Um mínimo de carisma, um mínimo de savoir faire?

Que gente muito fútil e superficial nos irrita? Que não somos obrigados a sorrir sem parar diante de um show de lugares comuns? E se eu deixar aquela pseudo amiga politicamente correta saber que eu sou bem sarcástica, o mundo vai cair?

O mundo vai cair se a gente não tiver a aprovação de pessoas que pensam de um modo completamente diferente do nosso? O mundo vai cair se a gente assumir que certos laços desafrouxaram, que algumas pessoas que foram importantes não significam mais nada para nós? Que a magia de determinadas situações se extinguiu e não há nada a se fazer?

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Se não tomarmos cuidado, a nossa vida emocional começa a virar uma grande lixeira afetiva como a casa das pessoas neuróticas obsessivas que vão acumulando tranqueiras mil. Por medo de desapegar daquilo que já se desapegou de nós, vamos fingindo um interesse sem sentido, sem razão de ser.

Vamos forjando emoções vazias, que fazem a vida parecer cada vez mais fria e distante de nós mesmos. Precisamos aprender a enterrar nossos cadáveres. Precisamos aprender a sepultar o que já morreu e está simplesmente embalsamado. E se eu não for por que já não sou aquela que recebeu o convite há séculos? O mundo vai cair?

Opte por homens que não tenham tudo sob controle.

Quando somos extremamente jovens e idealistas (na minha época, as garotas eram idealistas), ok, ok, ok. Esta coisa de minha época parece papo de gente bem idosa, olhando com desdém para as netas ou bisnetas vestidas com biquínis simbólicos. Biquínis que são mais metáforas do que uma vestimenta propriamente dita.

Sim, o tempo está passando tão depressa e as gerações estão se transformando de forma tão vertiginosa que já vi gente com 20 anos de idade dizendo o mesmo: “Quando era criança , não era assim”.

Ah? Como assim? Você foi criança ontem! Sim, é possível alguém que nasceu em meados dos anos 1990 ficar chocado com o comportamento daqueles que nasceram a partir de 2010. Mas vamos deixar este intricado e complicado tema para um outro artigo.

Voltando ao tema do meu atual post, o amor, quando somos jovens e idealistas, sonhamos com um homem realmente espetacular, sem lacunas, sem teclas quebradas, sem reticências, sem crises existenciais, sem sono na hora em que a gente quer curtir, capaz de nos conduzir sempre, nos orientando no sentido das pequenas loucuras ajuizadas.

Quando nos tornamos garotas apenas de alma, descobrimos o valor das pequenas coisas, como por exemplo, ter alguém por perto quando não conseguimos abrir o vidro de azeitonas. Ironia? De jeito nenhum!

É realmente bom ter alguém para abrir vidros de azeitonas e conservas em geral. É bom ter alguém para abrir a garrafa de espumante. É bom ter alguém para massagear os nossos pés quando estes estão bem cansados e meio doloridos.

É bom ter alguém que elogia os nossos pés, mesmo eles estando cheios de cutícula e sem esmalte. É bom ter alguém para te ensinar a usar o Instagram e dizer “Você está linda hoje” todos os dias em que te vê.

Alguém que acha que o seu vestidinho baratinho, comprado pela internet em 2013, é lindo. É bom ter alguém que coma com boca boa qualquer coisa que você faça, até mesmo um miojo passado na manteiga. É bom ter alguém que apesar de te achar super atraente, se apaixonou pela sua inteligência e irreverência.

É bom ter alguém que viva suas crises existenciais, que seja sensível, complexo, às vezes, meio escorregadio e complicado. É bom ter alguém que não tenha certeza de tudo, que se encontre meio perdido de vez em quando. Como ouvi uma vez, há milênios, um amigo dizer: “Não confie em ninguém que não tenha uma tristezinha no canto dos olhos”.

Como diria o filósofo rebelde Deleuze, o nosso charme é a nossa loucura. Esta coisa de gente sem tecla quebrada é muita chata. Gente que se acha perfeita demais enlouquece os outros no pior sentido da palavra loucura.

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Gente que não sabe rir de si mesma, que acredita saber fazer tudo da melhor maneira possível, fechada para o conhecimento alheio, fechada para aquilo que o outro tem a ensinar, fechada para novas experiências, prisioneiras de infinitos protocolos sociais.

Sim, opte por homens que não tenham tudo sob controle. Homens super poderosos são fofos apenas nas insuportáveis comédias românticas americanas. Na vida real eles são realmente chatos. Não importa o que você diga ou faça. Você sempre estará errada pois é ele quem tem o controle.

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Sílvia Marques

Professora universitária, escritora e estudante de Psicanálise. É colunista do site Fãs da Psicanálise.



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