Se você me pede algo, prezado(a) leitor(a), e eu lhe digo um “não”, provavelmente te frustrarei. Afinal de contas, quem pede algo, quer obter esse algo. E se quero te ver feliz, pensarei duas vezes antes de proferir essa negativa. O “não” bem intencionado, em nossa cultura, é desafiador. Sobre ele falaremos no presente texto.

Vivemos em um contexto no qual as aparências são sempre mais importantes do que as intenções. Uma pessoa bem educada e cínica é muito mais valorizada, de maneira geral, do que uma pessoa deselegante, porém prestativa e leal. Isso tem um motivo: comportamento são visíveis, já as intenções, nem sempre. Então, para sermos aceitos, aprendemos a investir em nossos comportamentos. Nem sempre damos a devida importância às intenções e aos sentimentos. Carecemos, assim, de saber o que é o amor.

O amor é muito mais do que uma determinada gama de comportamentos agradáveis a quem nós amamos. Não vem somente pela educação do outro ou pela sua gentileza. Mas também, por exemplo, pela atenção, pelo sacrifício e, dentre outras coisas, pelo “não”.

Ok, atenção é fácil entender. Afinal, escutar o outro é acolher. Sacrifício também, vide pais que sacrificam noites de sono e anos de dedicação pela formação de seus filhos. Mas, Vitor, o “não” pode fazer o outro chorar, ficar triste. Como isso pode ser uma atitude de amor?

Vamos lá, se eu quero o bem do outro, certamente desejo que este seja integral. Quero que a pessoa a qual me refira esteja bem física, mental, emocional e espiritualmente. Ora, certamente nem tudo que a outra pessoa deseja/realiza é algo que vejo como sendo saudável para o outro.

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Por exemplo, se meu amigo que é alcoólatra me pede dinheiro emprestado para comprar bebida, é evidente que não darei essa grana. Se minha filha me pede para dirigir o carro e eu sei que ela ainda não está devidamente habilitada, não permitirei isso. Se a mulher que eu amo, me pede para eu romper meus valores éticos para agradá-la, direi “não” para ela. E todas essas negativas existem porque existe amor.

O não sempre implica em riscos. Existe o risco do meu amigo e da minha filha brigarem comigo. Assim como existe o risco da mulher que eu amo brigar comigo ou até mesmo terminar nosso relacionamento. Mas certamente terei a certeza de que busquei, no que dependia de mim, o melhor para eles.

A existência é composta por satisfações e frustrações, e isso é o que traz crescimento e maturidade para as escolhas. Se eu quero o bem do outro, posso tanto provocar satisfação como frustração com minhas atitudes. De uma forma ou de outra o outro irá crescer. Cabe a mim ter a certeza e a consciência tranquila, de que mesmo eventualmente decepcionando o outro, o tempo todo busquei o melhor para ele.

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Vitor de Moraes Silva

Psicólogo, reside no Rio de Janeiro e é colunista do site Fãs da Psicanálise.



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